Pais e Sindicato debatem redução da mensalidade de escolas particulares

Pesquisa realizada pelo SINEPE/SC aponta que as instituições tiveram 18,2% a mais de gastos durante o período de isolamento

Por Dyessica Abadi

Durante os últimos meses, uma pauta recorrente vem sido debatida no âmbito econômico e que atinge um dos investimentos mais significativos da nossa sociedade: a educação. Os problemas financeiros não impactam apenas o setor empresarial — agora, pais e mães estão avaliando quais os gastos familiares que podem ser cortados ou negociados. É aí que a polêmica proposta de descontos em mensalidades de escolas privadas entra em pauta.

Tiago Losso é professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ele é pai de um menino de 11 anos que está cursando o 6º ano do fundamental em uma instituição privada e continua tendo aulas através da internet. “Eu estou vendo que o meu filho está se dedicando, mas nada disso consegue alcançar a riqueza da interação de dentro da sala de aula”, avalia. O pesquisador social reconhece que, apesar da educação ser um empreendimento, ela não é tão simples.
Você não pode demitir o professor e recontratá-lo no final do ano”. Tiago Losso, cientista social.

Uma mãe que não quis se identificar informou à reportagem que está preocupada com a qualidade do aprendizado da filha de 10 anos, mas também com o pagamento das mensalidades da escola particular. A mãe também é professora em uma Universidade da região e considera complicado a situação. “Sou professora e estou trabalhando muito mais neste período, adequando conteúdo, gravando vídeo aulas. Se reduzissem meu salário, eu não teria condições de pagar a mensalidade da minha filha. E se reduzissem a mensalidade, reduziria também o meu salário. Então, é uma questão bem complicada”, lamentou.

O pesquisador Tiago Losso indica que a pauta sobre a adequação das mensalidades das escolas privadas é complexa e poderia causar um problema muito maior ao sistema de ensino. “As escolas privadas e particulares fazem parte de um ecossistema de educação no qual subsidia alunos que a rede pública não teria condições de acolher. Não sei como funcionaria uma quebradeira generalizada dessas instituições. Teríamos um problema para o sistema de ensino como um todo”, pontua.

Uma recomendação é que, caso a família não tenha condições de pagar o valor integral, procure renegociar com a escola. “As aulas estão sendo remotas para todos, mas cada caso é um caso e deve ser analisado como tal. Tem instituições que estão trabalhando mais agora do que antes. Outras, diminuíram a carga horária das aulas e/ou, infelizmente, demitiram professores. A escola não é uma empresa qualquer”, afirma.

O cientista social ainda ressalta que o que está acontecendo agora é muito diferente do sistema de Ensino à Distância (EAD), pois essa metodologia demanda uma preparação que não foi possível ter. “O que está acontecendo agora é um quebra-galho em meio à situação atual”, salienta. Para ele, um dos prós que a atual situação fomenta é o aumento da autonomia e independência dos estudantes.

Entenda a proposta de adequação das mensalidades do Ministério Público de SC


No início deste mês, o Ministério Público de Santa Catarina (MP/SC) recomendou que as escolas particulares de ensino infantil, fundamental e médio dessem descontos no pagamento das mensalidades. Para o Ministério Público, as aulas da educação infantil tem dois pilares fundamentais: aprendizagem e cuidado.

Para o órgão, as escolas não estão prestando o último serviço neste período de isolamento. Com relação às aulas dos ensinos fundamental e médio, a orientação é para que haja transparência na apresentação da planilha de custos. O objetivo seria de repassar aos pais os descontos que foram economizados no período.

Pesquisa do SINEPE/SC revela altos índices de inadimplência e cancelamentos durante a quarentena


O Sindicato das Escolas Particulares do Estado de Santa Catarina (SINEPE/SC) divulgou na tarde de hoje, 14, uma pesquisa realizada junto aos afiliados sobre os impactos da crise do Coronavírus na instituições de ensino privada. De acordo com os dados, houve um aumento de 29,8% de custos para suprir novas necessidades. Em contrapartida, as escolas tiveram apenas uma economia de 11,66% com a redução de custos (materiais, água, luz, energia, telefone). Ou seja: as instituições gastaram 18,2% a mais com a realização de aulas remotas.

Outro dado que chama atenção é em relação ao aumento real de inadimplência: 93,5% dos pais deixaram de pagar, em algum momento, a mensalidade escolar dos filhos — esse índice que varia de 15% a 50% ao mês. O número também se repete quanto aos pedidos de cancelamento de matrícula: 93,5% das escolas afirmam terem tido solicitação de cancelamento durante a quarentena.

A pesquisa ainda revela que 53,3% das escolas afiliadas, mesmo na crise, já concederam reajuste salarial a todos os seus colaboradores (professores e administrativos), no mês de março (data-base). Além disso, 54,3% das instituições adotaram o “banco de horas individual” para alguns setores, previsto na MP nº 927/2020, para futuras compensações.

Em nota oficial divulgada junto à pesquisa, o SINEPE/SC diz: “importante seria se o Ministério Público do Estado de Santa Catarina (MPSC) compreendesse que o custo da operação de uma instituição privada de ensino se estabelece em relação ao universo de educandos matriculados nos diversos níveis de ensino ofertados”.

A instituição afirma que ceder descontos generalizados devido ao período de quarentena levaria ao fechamento massivo de estabelecimentos de ensino particulares. Logo, esse cenário resultaria em um efeito cascata, gerando um colapso na educação pública de Santa Catarina, que não teria capacidade de absorver os alunos da rede privada.

Diversas vezes o SINEPE/SC se posicionou sobre o assunto. Em nota divulgada à imprensa anteriormente, a organização afirmou que cerca de 80% da receita das instituições privadas são destinadas à folha de pagamento de professores e funcionários. Agora, o SINEPE/SC salienta que a falência das instituições privadas levaria o Governo a perder mais de R$ 25 bilhões de reais por ano, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas. Esse valor é referente à economia que a rede pública nacional tem ao não atender os mais de nove milhões alunos que atualmente estudam em escolas particulares. Ou seja: por estudarem em instituições privadas, não ocupam as vagas em escolas públicas. Logo, o Governo é capaz de economizar esse valor.

Senacon defende que cada escola possui um caso diferente


Na última semana, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) se manifestou contra descontos em mensalidades escolares em nota técnica. A publicação foi feita em meio a articulações entre Procons e secretarias para redução dos valores durante a pandemia do Coronavírus

O posicionamento do órgão é o mesmo do já firmado em março deste ano. A Senacon é ligada ao Ministério da Justiça e diz, em nota, que está surpresa com as iniciativas que propõem cortes nas mensalidades, por vias judiciais, sem quaisquer negociações.

A entidade também defende que a situação de cada escola deve ser avaliada separadamente, pois cada uma tem uma singularidade no que diz respeito a qualidade de ensino ou mesmo à oferta de aulas por meio da internet.

Diálogo entre pais e escola é a alternativa para encontrar possíveis soluções 


O SINEPE/SC aconselha às instituições que apresentem calendário escolar reformulado e justifiquem a manutenção ou a redução de custos. Dessa forma, deverá ser feita uma análise individual, caso a caso, entre pais e as instituições de ensino, com o objetivo de encontrar uma “solução que atenda a todos, de forma coletiva”. As escolas terão até amanhã, sexta-feira, 15, para apresentar calendário reformulado e custos.

Por fim, o Sindicato afirma que os impactos dessa crise trouxeram muito mais prejuízos do que benefícios e solicita à todos, pais e escolas, a prática da solidariedade, bom senso e respeito. “Neste momento, a análise individual, o caso a caso, e o diálogo permanente entre os contratantes e as instituições de ensino são fundamentais e indispensáveis para uma solução que atenda a todos, de forma coletiva”, conclui a nota.

 

Por Dyessica Abadi

Durante os últimos meses, uma pauta recorrente vem sido debatida no âmbito econômico e que atinge um dos investimentos mais significativos da nossa sociedade: a educação. Os problemas financeiros não impactam apenas o setor empresarial — agora, pais e mães estão avaliando quais os gastos familiares que podem ser cortados ou negociados. É aí que a polêmica proposta de descontos em mensalidades de escolas privadas entra em pauta.

Tiago Losso é professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ele é pai de um menino de 11 anos que está cursando o 6º ano do fundamental em uma instituição privada e continua tendo aulas através da internet. “Eu estou vendo que o meu filho está se dedicando, mas nada disso consegue alcançar a riqueza da interação de dentro da sala de aula”, avalia. O pesquisador social reconhece que, apesar da educação ser um empreendimento, ela não é tão simples.

Você não pode demitir o professor e recontratá-lo no final do ano”. Tiago Losso, cientista social.

Uma mãe que não quis se identificar informou à reportagem que está preocupada com a qualidade do aprendizado da filha de 10 anos, mas também com o pagamento das mensalidades da escola particular. A mãe também é professora em uma Universidade da região e considera complicado a situação. “Sou professora e estou trabalhando muito mais neste período, adequando conteúdo, gravando vídeo aulas. Se reduzissem meu salário, eu não teria condições de pagar a mensalidade da minha filha. E se reduzissem a mensalidade, reduziria também o meu salário. Então, é uma questão bem complicada”, lamentou.

O pesquisador Tiago Losso indica que a pauta sobre a adequação das mensalidades das escolas privadas é complexa e poderia causar um problema muito maior ao sistema de ensino. “As escolas privadas e particulares fazem parte de um ecossistema de educação no qual subsidia alunos que a rede pública não teria condições de acolher. Não sei como funcionaria uma quebradeira generalizada dessas instituições. Teríamos um problema para o sistema de ensino como um todo”, pontua.

Uma recomendação é que, caso a família não tenha condições de pagar o valor integral, procure renegociar com a escola. “As aulas estão sendo remotas para todos, mas cada caso é um caso e deve ser analisado como tal. Tem instituições que estão trabalhando mais agora do que antes. Outras, diminuíram a carga horária das aulas e/ou, infelizmente, demitiram professores. A escola não é uma empresa qualquer”, afirma.

O cientista social ainda ressalta que o que está acontecendo agora é muito diferente do sistema de Ensino à Distância (EAD), pois essa metodologia demanda uma preparação que não foi possível ter. “O que está acontecendo agora é um quebra-galho em meio à situação atual”, salienta. Para ele, um dos prós que a atual situação fomenta é o aumento da autonomia e independência dos estudantes.

Entenda a proposta de adequação das mensalidades do Ministério Público de SC

No início deste mês, o Ministério Público de Santa Catarina (MP/SC) recomendou que as escolas particulares de ensino infantil, fundamental e médio dessem descontos no pagamento das mensalidades. Para o Ministério Público, as aulas da educação infantil tem dois pilares fundamentais: aprendizagem e cuidado.

Para o órgão, as escolas não estão prestando o último serviço neste período de isolamento. Com relação às aulas dos ensinos fundamental e médio, a orientação é para que haja transparência na apresentação da planilha de custos. O objetivo seria de repassar aos pais os descontos que foram economizados no período.

Pesquisa do SINEPE/SC revela altos índices de inadimplência e cancelamentos durante a quarentena

O Sindicato das Escolas Particulares do Estado de Santa Catarina (SINEPE/SC) divulgou na tarde de hoje, 14, uma pesquisa realizada junto aos afiliados sobre os impactos da crise do Coronavírus na instituições de ensino privada. De acordo com os dados, houve um aumento de 29,8% de custos para suprir novas necessidades. Em contrapartida, as escolas tiveram apenas uma economia de 11,66% com a redução de custos (materiais, água, luz, energia, telefone). Ou seja: as instituições gastaram 18,2% a mais com a realização de aulas remotas.

Outro dado que chama atenção é em relação ao aumento real de inadimplência: 93,5% dos pais deixaram de pagar, em algum momento, a mensalidade escolar dos filhos — esse índice que varia de 15% a 50% ao mês. O número também se repete quanto aos pedidos de cancelamento de matrícula: 93,5% das escolas afirmam terem tido solicitação de cancelamento durante a quarentena.

A pesquisa ainda revela que 53,3% das escolas afiliadas, mesmo na crise, já concederam reajuste salarial a todos os seus colaboradores (professores e administrativos), no mês de março (data-base). Além disso, 54,3% das instituições adotaram o “banco de horas individual” para alguns setores, previsto na MP nº 927/2020, para futuras compensações.

Em nota oficial divulgada junto à pesquisa, o SINEPE/SC diz: “importante seria se o Ministério Público do Estado de Santa Catarina (MPSC) compreendesse que o custo da operação de uma instituição privada de ensino se estabelece em relação ao universo de educandos matriculados nos diversos níveis de ensino ofertados”.

A instituição afirma que ceder descontos generalizados devido ao período de quarentena levaria ao fechamento massivo de estabelecimentos de ensino particulares. Logo, esse cenário resultaria em um efeito cascata, gerando um colapso na educação pública de Santa Catarina, que não teria capacidade de absorver os alunos da rede privada.

Diversas vezes o SINEPE/SC se posicionou sobre o assunto. Em nota divulgada à imprensa anteriormente, a organização afirmou que cerca de 80% da receita das instituições privadas são destinadas à folha de pagamento de professores e funcionários. Agora, o SINEPE/SC salienta que a falência das instituições privadas levaria o Governo a perder mais de R$ 25 bilhões de reais por ano, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas. Esse valor é referente à economia que a rede pública nacional tem ao não atender os mais de nove milhões alunos que atualmente estudam em escolas particulares. Ou seja: por estudarem em instituições privadas, não ocupam as vagas em escolas públicas. Logo, o Governo é capaz de economizar esse valor.

Senacon defende que cada escola possui um caso diferente

Na última semana, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) se manifestou contra descontos em mensalidades escolares em nota técnica. A publicação foi feita em meio a articulações entre Procons e secretarias para redução dos valores durante a pandemia do Coronavírus

O posicionamento do órgão é o mesmo do já firmado em março deste ano. A Senacon é ligada ao Ministério da Justiça e diz, em nota, que está surpresa com as iniciativas que propõem cortes nas mensalidades, por vias judiciais, sem quaisquer negociações.

A entidade também defende que a situação de cada escola deve ser avaliada separadamente, pois cada uma tem uma singularidade no que diz respeito a qualidade de ensino ou mesmo à oferta de aulas por meio da internet.

Diálogo entre pais e escola é a alternativa para encontrar possíveis soluções 

O SINEPE/SC aconselha às instituições que apresentem calendário escolar reformulado e justifiquem a manutenção ou a redução de custos. Dessa forma, deverá ser feita uma análise individual, caso a caso, entre pais e as instituições de ensino, com o objetivo de encontrar uma “solução que atenda a todos, de forma coletiva”. As escolas terão até amanhã, sexta-feira, 15, para apresentar calendário reformulado e custos.

Por fim, o Sindicato afirma que os impactos dessa crise trouxeram muito mais prejuízos do que benefícios e solicita à todos, pais e escolas, a prática da solidariedade, bom senso e respeito. “Neste momento, a análise individual, o caso a caso, e o diálogo permanente entre os contratantes e as instituições de ensino são fundamentais e indispensáveis para uma solução que atenda a todos, de forma coletiva”, conclui a nota.

 

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