Blog Léia Batista: os replicantes

Coluna Léia Batista, 19/05/2020

Estou nesse momento pensando no quanto o ser humano dessa era digital digitalizou a própria existência. Não me refiro ao fato dele ter aderido às ferramentas tecnológicas que facilitam a vida em muitos aspectos, eu não seria louca em afirmar que viver na era da tecnologia não é algo espetacular.

Estou me referindo, portanto, à robotização do comportamento humano adquirida a partir da repetição do que é apresentado nas redes sociais. O que se constitui num confuso paradoxo: ao mesmo tempo em que as pessoas vivem a diversidade infinita gerada pela globalização, tendem a imitar o comportamento do outro como se fosse mais um dos modelos da série.

Tenho a impressão de que a informação recebida via rede social não passa mais pelo cérebro para ser processada, analisada e compreendida. Ao que me parece ela vai direto para pasta de arquivos a serem copiados, reproduzidos e compartilhados. E “dale” gente fazendo as mesmas coisas, falando as mesmas coisas, fotografando as mesmas coisas. Configurando a realidade de que a era tecnológica é o ápice da exaltação da máquina em detrimento do ser pensante, enfatizando o surgimento do ser replicante.

Antes da ascenção da tecnologia os comportamentos já eram ditados por influenciadores, os mais copiados eram os artistas famosos, cantores, atrizes e atores. Agora, além da invasão do “Digital Influencer” no dia a dia das pessoas, do bebê à vovó, tudo o que se pensa, se fala e se faz na maioria da vezes foi feito antes por alguém que recebeu muitas curtidas pelo feito.

Na cidade onde eu moro existe uma árvore exótica, linda, solitária em meio ao campo, fica próximo ao caminho que eu fazia quando criança para chegar na casa dos meus avós. Por centenas de anos ela viveu incógnita, até aparecer em uma foto na internet e ser muito curtida, compartilhada, ficar famosa, virar ponto turístico e ser invadida constantemente pela multidão que faz fila para fotografá-la.

Então, estou aqui pensando e me fazendo algumas perguntas: se não tivesse bombado na rede a árvore teria ficado famosa? As pessoas querem registrar fotos com a árvore por que a acham bela ou por que ela ficou famosa? As pessoas desejam ficar famosas ao registrar fotos com a árvore por que ela é bela?

Faço a mim mesma essas perguntas ao ver que existe uma imensidão de coisas lindas ao entorno para serem apreciadas, olhando para cima, para baixo, para trás, para todos os lados, mas que se não estiver dentro de uma tela luminosa, se não for muito curtida ou compartilhada, não é vista e não tem graça.

Assim como acontece com a árvore exótica da minha cidade, acontece com as pessoas: algumas jamais serão conhecidas, outras serão aclamadas. Nem sempre por serem reconhecidamente importantes ou belas, mas indubitavelmente porque em algum momento tiveram a “sorte” de serem replicadas na internet.

Léia Batista

Confira esta e outras crônicas no blog da escritora:  leiabatista.com.br

Estou nesse momento pensando no quanto o ser humano dessa era digital digitalizou a própria existência. Não me refiro ao fato dele ter aderido às ferramentas tecnológicas que facilitam a vida em muitos aspectos, eu não seria louca em afirmar que viver na era da tecnologia não é algo espetacular.

Estou me referindo, portanto, à robotização do comportamento humano adquirida a partir da repetição do que é apresentado nas redes sociais. O que se constitui num confuso paradoxo: ao mesmo tempo em que as pessoas vivem a diversidade infinita gerada pela globalização, tendem a imitar o comportamento do outro como se fosse mais um dos modelos da série.

Tenho a impressão de que a informação recebida via rede social não passa mais pelo cérebro para ser processada, analisada e compreendida. Ao que me parece ela vai direto para pasta de arquivos a serem copiados, reproduzidos e compartilhados. E “dale” gente fazendo as mesmas coisas, falando as mesmas coisas, fotografando as mesmas coisas. Configurando a realidade de que a era tecnológica é o ápice da exaltação da máquina em detrimento do ser pensante, enfatizando o surgimento do ser replicante.

Antes da ascenção da tecnologia os comportamentos já eram ditados por influenciadores, os mais copiados eram os artistas famosos, cantores, atrizes e atores. Agora, além da invasão do “Digital Influencer” no dia a dia das pessoas, do bebê à vovó, tudo o que se pensa, se fala e se faz na maioria da vezes foi feito antes por alguém que recebeu muitas curtidas pelo feito.

Na cidade onde eu moro existe uma árvore exótica, linda, solitária em meio ao campo, fica próximo ao caminho que eu fazia quando criança para chegar na casa dos meus avós. Por centenas de anos ela viveu incógnita, até aparecer em uma foto na internet e ser muito curtida, compartilhada, ficar famosa, virar ponto turístico e ser invadida constantemente pela multidão que faz fila para fotografá-la.

Então, estou aqui pensando e me fazendo algumas perguntas: se não tivesse bombado na rede a árvore teria ficado famosa? As pessoas querem registrar fotos com a árvore por que a acham bela ou por que ela ficou famosa? As pessoas desejam ficar famosas ao registrar fotos com a árvore por que ela é bela?

Faço a mim mesma essas perguntas ao ver que existe uma imensidão de coisas lindas ao entorno para serem apreciadas, olhando para cima, para baixo, para trás, para todos os lados, mas que se não estiver dentro de uma tela luminosa, se não for muito curtida ou compartilhada, não é vista e não tem graça.

Assim como acontece com a árvore exótica da minha cidade, acontece com as pessoas: algumas jamais serão conhecidas, outras serão aclamadas. Nem sempre por serem reconhecidamente importantes ou belas, mas indubitavelmente porque em algum momento tiveram a “sorte” de serem replicadas na internet.

Léia Batista

Confira esta e outras crônicas no blog da escritora:  leiabatista.com.br

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