“O racismo aqui é constantemente negado, mas ele existe” diz coordenador do Coletivo Negro Chega de Racismo

Coordenador do coletivo e professor universitário, Alex Sander da Silva fala sobre o racismo no extremo sul catarinense

Nas últimas semanas assassinatos de pessoas negras ocuparam as manchetes dos principais veículos de comunicação do mundo. Após o americano George Floyd ser cruelmente assassinado por policiais no dia 25 de maio, a bandeira do movimento Black Lives Matter foi traduzida em diferentes idiomas e fortaleceu o debate sobre o racismo sistêmico. No Brasil, os protestos ganharam ainda mais força com o pedido de justiça pelo assassinato de João Pedro, de 14 anos. O adolescente foi morto dentro da própria casa durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro em São Gonçalo - RJ, no dia 18 de maio.

Geograficamente estes crimes parecem estar distantes, mas será que o racismo está? A reportagem do Portal W3 entrevistou o professor universitário e coordenador do Coletivo Chega de Racismo de Criciúma, Alex Sander da Silva, para falar sobre a situação da população negra e parda no Vale do Araranguá. “Em Santa Catarina somamos cerca de 19,5%. Aqui na região do Extremo Sul Catarinense, particularmente na AMESC, sempre se renegou a presença da população negra ou pouco se reconhece ela. Também se considera que não haja racismo como nos grandes centros do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, ou no Norte e Nordeste, onde se concentra o maior número dessa população. O racismo aqui no sul catarinense é constantemente negado, mas ele existe”, salienta.

Segundo o Atlas da Violência divulgado em 2018, mostra que a taxa de homicídio entre negros é quase duas vezes maior que a de brancos no estado. A pesquisa também revela que a proporção de mortes entre a população negra quase dobrou nos últimos anos. A taxa era de 11,6 mortes para cada 100 mil habitantes em 2013 e cresceu anualmente para 22,4 mortes.

Também através do Atlas da Violência, é possível observar que mulheres negras catarinenses são proporcionalmente mais atingidas pela violência, com taxa de 5,1 mortes para cada 100 mil. A taxa entre os demais grupos étnicos no estado de mulheres é de 2,7 mortes.

Na AMESC não há informações sobre a porcentagem da população negra na região. Segundo Silva, a falta de dados dificulta o combate ao racismo. “Faltam esses dados em nossa região. Muitas políticas públicas não chegam a atender de forma específica os casos de racismo que existem, por exemplo, discriminação por raça/cor preta em entrevistas de emprego, atendimento na saúde ou estabelecimentos comerciais”.

Na pesquisa realizada pelo IBGE sobre desigualdade por cor ou raça de 2018, mostra o abismo social em SC. A desigualdade salarial chega a 39%. Os dados também revelam que a população negra e parda abaixo da linha da pobreza é quase o dobro em comparação aos brancos, que ocupam 6,8% enquanto a população negra e parda atinge 13%.

Na educação os números melhoram, mas ainda há uma grande diferença. Apenas 2% da população branca em Santa Catarina faz parte da taxa de analfabetismo, enquanto negros e pardos são 4,6%. Na parte da pesquisa que mostra o acesso ao ensino superior nas idades entre 18 e 24. Indica que enquanto pretos e pardos ocupam 17,8% das vagas em universidades, a população branca ocupa 37, 2%.

Silva destaca que o fato de pessoas negras estarem nos piores índices de desenvolvimento humano, implantar justiças sociais é uma alternativa para diminuir o racismo. “Outra coisa, seria criar políticas públicas afirmativas, que não é somente cotas raciais, mas criar espaços de representatividade da população negra nos órgãos políticos da sociedade, como por exemplo, criar uma Coordenação de Promoção de Igualdade Racial (COPIR) e o Conselho de Promoção de Igualdade Racial (COMPIR). Esses órgãos ajudariam o poder público a ter os dados das condições que vivem a população negra e pode ajudar a adotar políticas públicas para essa parcela da população”.
Não basta não ser racista, tem que ser antirracista

Como lutar contra o racismo

O racismo muitas vezes pode ocorrer de maneira velada. Embora os insultos não sejam escancarados, há várias formas de discriminar alguém. Silva exemplifica através de comportamentos racistas constantemente reproduzidos. “As pessoas não se declaram racistas, mas muitas vezes, desviam o caminho quando encontram uma pessoa negra, não sentam no ônibus do lado de uma pessoa negra. Não oferecem oportunidade de empregos, só pelo fato de ser negra e não atender o “perfil desejado”. Ou seja, o “mito da boa aparência” sempre é um impedimento de acesso as boas vagas de emprego, mesmo tendo ótima competência e currículo”.

Para Alex, o primeiro passo para combater o racismo é reconhecer que ele existe. Mas só isso não basta. “É preciso fazer dois movimentos combinados: um primeiro movimento seria individual, ou seja, cada pessoa ter uma postura antirracista. Não tolerar piadas, atos discriminatórios em todos os lugares, etc; um segundo movimento seria da sociedade como tudo, isto é, de criar condições de combater as desigualdades sociais”.

Alex continua, “vivemos mais de 300 anos de escravidão negra e um pouco mais de 130 anos de abolição e o Brasil não conseguiu superar o racismo. Temos que derrotar o mito da democracia racial, dizendo que “todo mudo é igual”. Se todos fossemos iguais, de fato, não haveria racismo. Mas o racismo está aí e que faz com que as pessoas negras sejam tratadas diferentes. Como diz a ativista norteamericana Angela Davis, na luta e combate ao racismo, não basta não ser racista, tem que ser antirracista”, finaliza.

Nas últimas semanas assassinatos de pessoas negras ocuparam as manchetes dos principais veículos de comunicação do mundo. Após o americano George Floyd ser cruelmente assassinado por policiais no dia 25 de maio, a bandeira do movimento Black Lives Matter foi traduzida em diferentes idiomas e fortaleceu o debate sobre o racismo sistêmico. No Brasil, os protestos ganharam ainda mais força com o pedido de justiça pelo assassinato de João Pedro, de 14 anos. O adolescente foi morto dentro da própria casa durante uma operação policial no Complexo do Salgueiro em São Gonçalo – RJ, no dia 18 de maio.

Geograficamente estes crimes parecem estar distantes, mas será que o racismo está? A reportagem do Portal W3 entrevistou o professor universitário e coordenador do Coletivo Chega de Racismo de Criciúma, Alex Sander da Silva, para falar sobre a situação da população negra e parda no Vale do Araranguá. “Em Santa Catarina somamos cerca de 19,5%. Aqui na região do Extremo Sul Catarinense, particularmente na AMESC, sempre se renegou a presença da população negra ou pouco se reconhece ela. Também se considera que não haja racismo como nos grandes centros do país, como São Paulo e Rio de Janeiro, ou no Norte e Nordeste, onde se concentra o maior número dessa população. O racismo aqui no sul catarinense é constantemente negado, mas ele existe”, salienta.

Segundo o Atlas da Violência divulgado em 2018, mostra que a taxa de homicídio entre negros é quase duas vezes maior que a de brancos no estado. A pesquisa também revela que a proporção de mortes entre a população negra quase dobrou nos últimos anos. A taxa era de 11,6 mortes para cada 100 mil habitantes em 2013 e cresceu anualmente para 22,4 mortes.

Também através do Atlas da Violência, é possível observar que mulheres negras catarinenses são proporcionalmente mais atingidas pela violência, com taxa de 5,1 mortes para cada 100 mil. A taxa entre os demais grupos étnicos no estado de mulheres é de 2,7 mortes.

Na AMESC não há informações sobre a porcentagem da população negra na região. Segundo Silva, a falta de dados dificulta o combate ao racismo. “Faltam esses dados em nossa região. Muitas políticas públicas não chegam a atender de forma específica os casos de racismo que existem, por exemplo, discriminação por raça/cor preta em entrevistas de emprego, atendimento na saúde ou estabelecimentos comerciais”.

Na pesquisa realizada pelo IBGE sobre desigualdade por cor ou raça de 2018, mostra o abismo social em SC. A desigualdade salarial chega a 39%. Os dados também revelam que a população negra e parda abaixo da linha da pobreza é quase o dobro em comparação aos brancos, que ocupam 6,8% enquanto a população negra e parda atinge 13%.

Na educação os números melhoram, mas ainda há uma grande diferença. Apenas 2% da população branca em Santa Catarina faz parte da taxa de analfabetismo, enquanto negros e pardos são 4,6%. Na parte da pesquisa que mostra o acesso ao ensino superior nas idades entre 18 e 24. Indica que enquanto pretos e pardos ocupam 17,8% das vagas em universidades, a população branca ocupa 37, 2%.

Silva destaca que o fato de pessoas negras estarem nos piores índices de desenvolvimento humano, implantar justiças sociais é uma alternativa para diminuir o racismo. “Outra coisa, seria criar políticas públicas afirmativas, que não é somente cotas raciais, mas criar espaços de representatividade da população negra nos órgãos políticos da sociedade, como por exemplo, criar uma Coordenação de Promoção de Igualdade Racial (COPIR) e o Conselho de Promoção de Igualdade Racial (COMPIR). Esses órgãos ajudariam o poder público a ter os dados das condições que vivem a população negra e pode ajudar a adotar políticas públicas para essa parcela da população”.

Não basta não ser racista, tem que ser antirracista

Como lutar contra o racismo

O racismo muitas vezes pode ocorrer de maneira velada. Embora os insultos não sejam escancarados, há várias formas de discriminar alguém. Silva exemplifica através de comportamentos racistas constantemente reproduzidos. “As pessoas não se declaram racistas, mas muitas vezes, desviam o caminho quando encontram uma pessoa negra, não sentam no ônibus do lado de uma pessoa negra. Não oferecem oportunidade de empregos, só pelo fato de ser negra e não atender o “perfil desejado”. Ou seja, o “mito da boa aparência” sempre é um impedimento de acesso as boas vagas de emprego, mesmo tendo ótima competência e currículo”.

Para Alex, o primeiro passo para combater o racismo é reconhecer que ele existe. Mas só isso não basta. “É preciso fazer dois movimentos combinados: um primeiro movimento seria individual, ou seja, cada pessoa ter uma postura antirracista. Não tolerar piadas, atos discriminatórios em todos os lugares, etc; um segundo movimento seria da sociedade como tudo, isto é, de criar condições de combater as desigualdades sociais”.

Alex continua, “vivemos mais de 300 anos de escravidão negra e um pouco mais de 130 anos de abolição e o Brasil não conseguiu superar o racismo. Temos que derrotar o mito da democracia racial, dizendo que “todo mudo é igual”. Se todos fossemos iguais, de fato, não haveria racismo. Mas o racismo está aí e que faz com que as pessoas negras sejam tratadas diferentes. Como diz a ativista norteamericana Angela Davis, na luta e combate ao racismo, não basta não ser racista, tem que ser antirracista”, finaliza.

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