O que esperar? Cientistas contextualizam os efeitos do Coronavírus no país e no estado

Em entrevista à redação da W3, cientistas sociopolítico e econômico analisam e explicam as medidas de enfrentamento ao Covid-19 adotadas pelos Governo

Por Dyessica Abadi


A epidemia mundial do Coronavírus colocou em estado de calamidade pública o Brasil. Neste cenário de crise, as informações mudam diariamente e a população fica sem perspectivas sobre o dia de amanhã. Atualmente, o Estado de Santa Catarina vêm adotando medidas sociais e econômicas de proteção. Com o objetivo de esclarecer a situação e algumas possibilidades, a equipe da W3 entrevistou um cientista econômico e um sociopolítico para responder algumas questões preponderantes.

Lauro Mattei atua na área de Economia e ministra disciplinas da graduação em Ciências Econômicas e no Programa de Pós-Graduação de Administração. Além disso, é coordenador do NECAT (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense). Tiago Losso é pesquisador do Núcleo de Estudos do Pensamento Político e professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política. Ambos são pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Aspectos da economia mundial que precisam ser considerados


Um dos principais pontos levantados pelo cientista econômico, Lauro Mattei, é que a nova crise mundial instaurada pelo Covid-19 é diferente das anteriores (crise do petróleo, nos anos 70s, e a crise financeira de 2008 - 2009) e foram derivadas da própria economia. O que vivemos agora é uma crise sanitária de grandes proporções e que “tem causado impactos expressivos na economia de todos os países”.

“Em segundo lugar, essa nova situação está mostrando ao mundo que o ideário econômico neoliberal que vem pautando as intervenções econômicas nas últimas cinco décadas está sendo fortemente questionado, ao mesmo tempo em que emerge novamente o papel preponderante do Estado, sobretudo em termos de medidas e políticas efetivas para reaquecer as atividades econômicas”, avalia Mattei.

O coordenador do NECAT ainda pondera que a atual crise econômica não será de curta duração, como considera o Ministro da Economia do Brasil: “ao contrário, por ser uma crise derivada de outra área, ela terá impactos em diversas áreas, dificultando assim uma rápida recuperação das atividades econômicas”. Para o economista, o mundo irá enfrentar um forte período recessivo nos próximos dois anos, com queda das atividades econômicas e com os consequentes problemas sociais. “Porém, o grau dos efeitos de tudo isso em cada país vai depender do tipo de políticas que cada um deles irá adotar neste momento”, finaliza Mattei.

Governo Federal vs. Covid-19 


Frente à avalanche de informações e posicionamentos divergentes entre as três esferas da União (âmbitos Federal, Estadual e Municipal), o cientista sociopolítico, Tiago Losso, considera que não há uma uniformidade nas orientações e medidas adotadas pelas entidades públicas. Para ele, é inédito o fato do Brasil se encontrar atualmente sem uma liderança política que centralize a ação dos governos em meio à crise.
Eu acho que o mais interessante... não vou falar ‘mais interessante’ porque pode parecer uma coisa boa… Mas o mais bizarro é que hoje o Presidente da República é contrário às próprias políticas da administração dele. Essa é uma coisa maluca, assim, porque o Ministério da Saúde está seguindo os protocolos sugeridos pela Organização Mundial de Saúde e, o que ficou muito claro no pronunciamento à nação de terça-feira (24/03) é que o Jair Bolsonaro não concorda com aquilo. À despeito disso, o vice-presidente vem dando declarações do tipo: “olha, a posição oficial do Governo Federal é isolamento social”. Então, acho que isso é uma coisa inédita, onde o Presidente da República ele não só não concorda com as medidas que a própria administração dele está tomando oficialmente, como ele publicamente orienta a população a se comportar de maneiras contrárias ao que está sendo recomendado. Isso está causando uma confusão que a gente nem sabe o tamanho ainda, mas acho que ela está sendo minimizada pelo fato de que essa postura dele é tão alucinada que ninguém está seguindo”, Tiago Losso, cientista sociopolítico.

Em polêmico discurso à nação transmitido na última terça-feira, 24, o presidente Jair Bolsonaro chega a afirmar que: “no meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”. A postura negacionista de Bolsonaro é questionada não apenas pela população, mas também pelas outras autoridades políticas. “Isso aí está sendo um teste. O sujeito que é uma liderança política, o sujeito que pode ser uma guia moral, ou que pode ser alguém que realmente faça a diferença, é em momentos de crise que essas pessoas tem como mostrar a que vieram. E o Jair Bolsonaro está enfrentando talvez o que pode se transformar numa das maiores crises da nossa história recente”, afirma Tiago Losso.

No âmbito econômico, a crise tem impactado diversos setores ao transmitir seus efeitos ao conjunto de cadeias produtivas, tendo em vista as correlações do atual sistema econômico. Para Lauro Mattei, três estratégias que são observadas na maioria dos países do mundo deveriam ser adotadas pelo Governo Federal como frentes essenciais:

  1. garantir a solvência das empresas (sobretudo do capital de giro), a fim de assegurar a continuidade do funcionamento;

  2. garantir a manutenção dos níveis de emprego e salários dos trabalhadores;

  3. e atender os segmentos mais vulneráveis da população, pois, além de excluídos economicamente, são mais expostos aos riscos da epidemia.


Infelizmente, o governo brasileiro ainda não está fazendo sua parte como deveria, uma vez que as medidas até agora anunciadas, além de tímidas para enfrentar as três dimensões anteriores, estão demorando muito para serem implementadas, o que poderá levar a um caos social caso a epidemia avance mais rapidamente, conforme está previsto em todos os estudos científicos. Aqui externalizo a minha preocupação ao observar o desenrolar desse processo epidêmico, cujos epicentros foram se alternando com o tempo (China, depois Itália e agora EUA). Tudo indica que em meados de abril o Brasil será a bola da vez” Lauro Mattei, cientista econômico.

Mesmo que os Governos estaduais e municipais adotem medidas mais efetivas do que o Governo Federal, Lauro Mattei salienta que os impactos da atual crise econômica global irão afetar fortemente a economia brasileira. Para ele, a razão é óbvia: “desde 2015 o país vem enfrentando sérios problemas com indicadores básicos muito precários, a exemplo do comportamento do PIB, que em média apresentou taxa negativa da ordem de 0,90% ao ano no período (2015 a 2019). Mesmo com todas as reformas ditas salvadoras (limitação do teto de gastos públicos, reforma trabalhista, reforma da previdência, etc.) esse cenário não se alterou e hoje temos uma taxa elevadíssima de desemprego no país (quase 12 milhões de pessoas), bem como uma das piores taxas de investimento da economia nas duas últimas décadas”, conclui. Nesse contexto, as economias estaduais e regionais são inevitavelmente impactadas e impedidas de se expandir da forma necessária.

Efetividade das políticas públicas estaduais de enfrentamento à crise


Em Santa Catarina, o primeiro Decreto do Governo Estadual que previa a situação de emergência foi publicado no dia 17 de março. A partir de então, houve o apoio da população à quarentena domiciliar. O pesquisador político Tiago Losso acredita que os reflexos da crise vão ser distintos para as diferentes regiões do país, justamente pelas divergência entre medidas adotadas em cada localidade. “Eu acho que Santa Catarina foi o primeiro estado a tomar uma decisão radical de parar tudo, ao passo de que os shoppings em São Paulo estavam abertos até a última segunda-feira. No Rio de janeiro o transporte coletivo continua funcionando e com todas aquelas precariedades que a gente conhece: ônibus lotados, plataformas cheias de pessoas”, avalia.

Apesar da estratégia de quarentena horizontal ser um tanto radical e drástica, ela permite que o Estado seja capaz de conter ou diminuir a expansão do vírus, num ritmo ao qual seja possível o sistema de saúde absorver e diminuir a letalidade. Entretanto, é necessário que seja feita uma quantidade muito grande de testes, o que não vem ocorrendo — apenas estão sendo testados os casos de internação, sem contar a fila de centenas de testes que já foram feitos e ainda não tiveram seus resultados divulgados.

O cientista Tiago Losso é otimista no que tange às medidas de contenção adotadas em Santa Catarina, em comparação com outros estados da Federação. Para ele, o Estado seguiu os exemplos de outros países mais desenvolvidos. “Existem três níveis de quarentena: primeiro se limita um pouco disso e depois aquilo e o nível 3 é isso que está aqui em Santa Catarina, fecha tudo todo mundo em casa. O que o governo parece ter avaliado é que na Espanha e na Itália começaram com esse nível 1, 2 e 3 e que, na verdade, eles deveriam começar com 3 e depois ir afrouxando. Até lá, vai demorar muito para a vida voltar ao normal”, comenta. 

Por outro lado, sendo um tanto mais realista no que tange aos assuntos econômicos do Estado, Lauro Mattei relembra o fato de que as Unidades Federativas dependem principalmente das transferências financeiras do Governo Federal. Nesse ponto, o pesquisador considera como uma das alternativas possíveis e que vem sendo adotada neste momento, com apoio da justiça, é a suspensão do pagamento das dívidas dos Estados com a União. “Essa medida seria importante para os governos estaduais se preparem melhor para enfrentar a epidemia, bem como ter um fluxo de caixa para pequenos investimentos, especialmente nas áreas sociais”, pontua Mattei.
Além disso, com o baixo crescimento econômico dos últimos anos, a segunda fonte financeira mais importante para o estado (arrecadação do ICMS) está em uma trajetória descendente, agravando ainda mais a capacidade de intervenção em áreas cruciais, como será o caso da saúde diante dessa nova epidemia, que se não for controlada no seu devido tempo e de acordo com as recomendações das áreas técnicas específicas, poderá causar danos de grandes proporções, inclusive ceifando vidas desnecessariamente”, ressalta o cientista econômico, Lauro Mattei.

E o que podemos esperar do futuro?


Em comparação ao estado de desunião e os problemas pontuais de administração do Governo Federal, Santa Catarina poderá estar mais “tranquila” do que os outros estados da nação. Ao menos é isso o que acredita o cientista sociopolítico Tiago Losso. “A nossa economia ela vem se comportando muito melhor, o nosso sistema único de saúde é melhor que o de outras regiões, os nossos números também são melhores do que os demais números do país inteiro. Então, eu posso estar sendo otimista, mas eu acho que, olhando para essa situação, existe uma chance de que nós, aqui em Santa Catarina, possamos ter um reflexo não tão ruim ou menos ruim do que outras regiões. Mas isso a gente vai começar a notar nas próximas semanas. Provavelmente a gente só vai ter esses números no início do ano que vem, porque as contas públicas apresentam realmente o crescimento consolidado do PIB do ano anterior somente no primeiro trimestre do novo ano”, avalia.

A expectativa para a próxima semana é de uma retomada lenta e gradual das atividades. Diminuição do número de trabalhadores em determinados ambientes, higienização de locais, aumento na produção de álcool gel e máscaras de proteção para os trabalhadores de saúde são algumas das medidas de retomada das atividades e contenção da disseminação do Coronavírus que deverão ser adotadas. “Então vamos pensar num cenário que em meados de Abril a economia catarinense, depois de ter ficado parada duas semanas, já está retomando gradativamente as atividades utilizando uma etiqueta de contágio que provavelmente vai durar até o final do ano”, conclui Tiago Losso.

 

Por Dyessica Abadi

A epidemia mundial do Coronavírus colocou em estado de calamidade pública o Brasil. Neste cenário de crise, as informações mudam diariamente e a população fica sem perspectivas sobre o dia de amanhã. Atualmente, o Estado de Santa Catarina vêm adotando medidas sociais e econômicas de proteção. Com o objetivo de esclarecer a situação e algumas possibilidades, a equipe da W3 entrevistou um cientista econômico e um sociopolítico para responder algumas questões preponderantes.

Lauro Mattei atua na área de Economia e ministra disciplinas da graduação em Ciências Econômicas e no Programa de Pós-Graduação de Administração. Além disso, é coordenador do NECAT (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense). Tiago Losso é pesquisador do Núcleo de Estudos do Pensamento Político e professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política. Ambos são pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Aspectos da economia mundial que precisam ser considerados

Um dos principais pontos levantados pelo cientista econômico, Lauro Mattei, é que a nova crise mundial instaurada pelo Covid-19 é diferente das anteriores (crise do petróleo, nos anos 70s, e a crise financeira de 2008 – 2009) e foram derivadas da própria economia. O que vivemos agora é uma crise sanitária de grandes proporções e que “tem causado impactos expressivos na economia de todos os países”.

“Em segundo lugar, essa nova situação está mostrando ao mundo que o ideário econômico neoliberal que vem pautando as intervenções econômicas nas últimas cinco décadas está sendo fortemente questionado, ao mesmo tempo em que emerge novamente o papel preponderante do Estado, sobretudo em termos de medidas e políticas efetivas para reaquecer as atividades econômicas”, avalia Mattei.

O coordenador do NECAT ainda pondera que a atual crise econômica não será de curta duração, como considera o Ministro da Economia do Brasil: “ao contrário, por ser uma crise derivada de outra área, ela terá impactos em diversas áreas, dificultando assim uma rápida recuperação das atividades econômicas”. Para o economista, o mundo irá enfrentar um forte período recessivo nos próximos dois anos, com queda das atividades econômicas e com os consequentes problemas sociais. “Porém, o grau dos efeitos de tudo isso em cada país vai depender do tipo de políticas que cada um deles irá adotar neste momento”, finaliza Mattei.

Governo Federal vs. Covid-19 

Frente à avalanche de informações e posicionamentos divergentes entre as três esferas da União (âmbitos Federal, Estadual e Municipal), o cientista sociopolítico, Tiago Losso, considera que não há uma uniformidade nas orientações e medidas adotadas pelas entidades públicas. Para ele, é inédito o fato do Brasil se encontrar atualmente sem uma liderança política que centralize a ação dos governos em meio à crise.

Eu acho que o mais interessante… não vou falar ‘mais interessante’ porque pode parecer uma coisa boa… Mas o mais bizarro é que hoje o Presidente da República é contrário às próprias políticas da administração dele. Essa é uma coisa maluca, assim, porque o Ministério da Saúde está seguindo os protocolos sugeridos pela Organização Mundial de Saúde e, o que ficou muito claro no pronunciamento à nação de terça-feira (24/03) é que o Jair Bolsonaro não concorda com aquilo. À despeito disso, o vice-presidente vem dando declarações do tipo: “olha, a posição oficial do Governo Federal é isolamento social”. Então, acho que isso é uma coisa inédita, onde o Presidente da República ele não só não concorda com as medidas que a própria administração dele está tomando oficialmente, como ele publicamente orienta a população a se comportar de maneiras contrárias ao que está sendo recomendado. Isso está causando uma confusão que a gente nem sabe o tamanho ainda, mas acho que ela está sendo minimizada pelo fato de que essa postura dele é tão alucinada que ninguém está seguindo”, Tiago Losso, cientista sociopolítico.

Em polêmico discurso à nação transmitido na última terça-feira, 24, o presidente Jair Bolsonaro chega a afirmar que: “no meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”. A postura negacionista de Bolsonaro é questionada não apenas pela população, mas também pelas outras autoridades políticas. “Isso aí está sendo um teste. O sujeito que é uma liderança política, o sujeito que pode ser uma guia moral, ou que pode ser alguém que realmente faça a diferença, é em momentos de crise que essas pessoas tem como mostrar a que vieram. E o Jair Bolsonaro está enfrentando talvez o que pode se transformar numa das maiores crises da nossa história recente”, afirma Tiago Losso.

No âmbito econômico, a crise tem impactado diversos setores ao transmitir seus efeitos ao conjunto de cadeias produtivas, tendo em vista as correlações do atual sistema econômico. Para Lauro Mattei, três estratégias que são observadas na maioria dos países do mundo deveriam ser adotadas pelo Governo Federal como frentes essenciais:

  1. garantir a solvência das empresas (sobretudo do capital de giro), a fim de assegurar a continuidade do funcionamento;
  2. garantir a manutenção dos níveis de emprego e salários dos trabalhadores;
  3. e atender os segmentos mais vulneráveis da população, pois, além de excluídos economicamente, são mais expostos aos riscos da epidemia.

Infelizmente, o governo brasileiro ainda não está fazendo sua parte como deveria, uma vez que as medidas até agora anunciadas, além de tímidas para enfrentar as três dimensões anteriores, estão demorando muito para serem implementadas, o que poderá levar a um caos social caso a epidemia avance mais rapidamente, conforme está previsto em todos os estudos científicos. Aqui externalizo a minha preocupação ao observar o desenrolar desse processo epidêmico, cujos epicentros foram se alternando com o tempo (China, depois Itália e agora EUA). Tudo indica que em meados de abril o Brasil será a bola da vez” Lauro Mattei, cientista econômico.

Mesmo que os Governos estaduais e municipais adotem medidas mais efetivas do que o Governo Federal, Lauro Mattei salienta que os impactos da atual crise econômica global irão afetar fortemente a economia brasileira. Para ele, a razão é óbvia: “desde 2015 o país vem enfrentando sérios problemas com indicadores básicos muito precários, a exemplo do comportamento do PIB, que em média apresentou taxa negativa da ordem de 0,90% ao ano no período (2015 a 2019). Mesmo com todas as reformas ditas salvadoras (limitação do teto de gastos públicos, reforma trabalhista, reforma da previdência, etc.) esse cenário não se alterou e hoje temos uma taxa elevadíssima de desemprego no país (quase 12 milhões de pessoas), bem como uma das piores taxas de investimento da economia nas duas últimas décadas”, conclui. Nesse contexto, as economias estaduais e regionais são inevitavelmente impactadas e impedidas de se expandir da forma necessária.

Efetividade das políticas públicas estaduais de enfrentamento à crise

Em Santa Catarina, o primeiro Decreto do Governo Estadual que previa a situação de emergência foi publicado no dia 17 de março. A partir de então, houve o apoio da população à quarentena domiciliar. O pesquisador político Tiago Losso acredita que os reflexos da crise vão ser distintos para as diferentes regiões do país, justamente pelas divergência entre medidas adotadas em cada localidade. “Eu acho que Santa Catarina foi o primeiro estado a tomar uma decisão radical de parar tudo, ao passo de que os shoppings em São Paulo estavam abertos até a última segunda-feira. No Rio de janeiro o transporte coletivo continua funcionando e com todas aquelas precariedades que a gente conhece: ônibus lotados, plataformas cheias de pessoas”, avalia.

Apesar da estratégia de quarentena horizontal ser um tanto radical e drástica, ela permite que o Estado seja capaz de conter ou diminuir a expansão do vírus, num ritmo ao qual seja possível o sistema de saúde absorver e diminuir a letalidade. Entretanto, é necessário que seja feita uma quantidade muito grande de testes, o que não vem ocorrendo — apenas estão sendo testados os casos de internação, sem contar a fila de centenas de testes que já foram feitos e ainda não tiveram seus resultados divulgados.

O cientista Tiago Losso é otimista no que tange às medidas de contenção adotadas em Santa Catarina, em comparação com outros estados da Federação. Para ele, o Estado seguiu os exemplos de outros países mais desenvolvidos. “Existem três níveis de quarentena: primeiro se limita um pouco disso e depois aquilo e o nível 3 é isso que está aqui em Santa Catarina, fecha tudo todo mundo em casa. O que o governo parece ter avaliado é que na Espanha e na Itália começaram com esse nível 1, 2 e 3 e que, na verdade, eles deveriam começar com 3 e depois ir afrouxando. Até lá, vai demorar muito para a vida voltar ao normal”, comenta. 

Por outro lado, sendo um tanto mais realista no que tange aos assuntos econômicos do Estado, Lauro Mattei relembra o fato de que as Unidades Federativas dependem principalmente das transferências financeiras do Governo Federal. Nesse ponto, o pesquisador considera como uma das alternativas possíveis e que vem sendo adotada neste momento, com apoio da justiça, é a suspensão do pagamento das dívidas dos Estados com a União. “Essa medida seria importante para os governos estaduais se preparem melhor para enfrentar a epidemia, bem como ter um fluxo de caixa para pequenos investimentos, especialmente nas áreas sociais”, pontua Mattei.

Além disso, com o baixo crescimento econômico dos últimos anos, a segunda fonte financeira mais importante para o estado (arrecadação do ICMS) está em uma trajetória descendente, agravando ainda mais a capacidade de intervenção em áreas cruciais, como será o caso da saúde diante dessa nova epidemia, que se não for controlada no seu devido tempo e de acordo com as recomendações das áreas técnicas específicas, poderá causar danos de grandes proporções, inclusive ceifando vidas desnecessariamente”, ressalta o cientista econômico, Lauro Mattei.

E o que podemos esperar do futuro?

Em comparação ao estado de desunião e os problemas pontuais de administração do Governo Federal, Santa Catarina poderá estar mais “tranquila” do que os outros estados da nação. Ao menos é isso o que acredita o cientista sociopolítico Tiago Losso. “A nossa economia ela vem se comportando muito melhor, o nosso sistema único de saúde é melhor que o de outras regiões, os nossos números também são melhores do que os demais números do país inteiro. Então, eu posso estar sendo otimista, mas eu acho que, olhando para essa situação, existe uma chance de que nós, aqui em Santa Catarina, possamos ter um reflexo não tão ruim ou menos ruim do que outras regiões. Mas isso a gente vai começar a notar nas próximas semanas. Provavelmente a gente só vai ter esses números no início do ano que vem, porque as contas públicas apresentam realmente o crescimento consolidado do PIB do ano anterior somente no primeiro trimestre do novo ano”, avalia.

A expectativa para a próxima semana é de uma retomada lenta e gradual das atividades. Diminuição do número de trabalhadores em determinados ambientes, higienização de locais, aumento na produção de álcool gel e máscaras de proteção para os trabalhadores de saúde são algumas das medidas de retomada das atividades e contenção da disseminação do Coronavírus que deverão ser adotadas. “Então vamos pensar num cenário que em meados de Abril a economia catarinense, depois de ter ficado parada duas semanas, já está retomando gradativamente as atividades utilizando uma etiqueta de contágio que provavelmente vai durar até o final do ano”, conclui Tiago Losso.

 

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