CRÍTICA: The Boys – 1ª Temporada, uma perspectiva irônica e violenta sobre os super-heróis

Por Dyessica Abadi


Uma obra ficcional é bem sucedida quando nos faz refletir sobre a nossa própria realidade. Há anos que o homem utiliza-se de dicotomias baseadas em binarismos para defender conceitos de moralidade: o bem e o mal; o justo e o injusto. Entretanto, a natureza humana é muito mais complexa — e interessante — do que essas simplórias concepções. Em meio a uma indústria saturada pelo gênero de super-heróis (oi, Marvel), The Boys é uma série que apresenta uma trama cheia de seres poderosos, mas desprezíveis.

[caption id="attachment_60241" align="aligncenter" width="878"] Foto: Divulgação/IMDB[/caption]

Os quadrinhos de Garth Ennis foram a base para The Boys, série da Amazon Prime dividida em oito episódios, que mostra a nossa realidade contemporânea sendo habitada por super-heróis. Desenvolvido por Evan Goldberg e Seth Rogen, a série ainda conta com Eric Kripke, um dos nomes mais importantes da televisão estadunidense — ele é o criador de Supernatural. Inicialmente, a história acompanha o personagem de Hughie Campbell (Jack Quaid), um jovem comum que assiste ao brutal assassinato da namorada em um acidente envolvendo um super-herói. Após perceber o desprezo e a falta de culpa dele, Hughie entende que o sistema é pensado para inocentar os poderosos. Desamparado, o rapaz encontra esperança em conseguir justiça com a ajuda de Billy Bruto (Kartl Urban) e outros desajustados: Francês (Tomer Kapon), Fêmea (Karen Fukuhara) e Leitinho (Laz Alonso).

Cinematograficamente falando, The Boys relembra o sadismo de Watchmen (2009), mas cuidadosamente atualizado para a era digital. O filme dirigido por Zack Snyder é uma adaptação da história em quadrinhos escrita por Alan Moore e publicada pela DC Comics. A trama de Watchman é situada em 1985, onde super-heróis existem e seus atos influenciam a política mundial — o que torna The Boys não muito distante do filme. Ambas histórias tratam de uma realidade ficcional com supers e que acabam abordando assuntos pertinentes a nossa realidade.

A série sucede ao apresentar uma camada de metalinguagem que cativa e, ao mesmo tempo, satiriza o gênero. Em tempos de digital influencers, os super-heróis tem seus feitos monetizados com filmes, vídeos no Instagram, campanhas de marketing e assim por diante. É insuportável perceber que, se os supers realmente existissem, essa possivelmente seria a nossa realidade. Até o lançamento de Vingadores: Ultimato, a Marvel Studios era avaliada em 18 bilhões de dólares — o maior valor já feito por uma única franquia. A empresa sucedeu e tornou-se uma gigante em Hollywood quando desenvolveu o conceito de Universo Compartilhado (Universo Cinematográfico Marvel, ou, no original, Marvel Cinematic Universe). 

[caption id="attachment_60243" align="aligncenter" width="1170"] Foto: Divulgação/IMDB[/caption]

As referências são inevitáveis: o grupo de super-heróis chamado Os Sete são claramente alusivos à Liga da Justiça da DC Comics. Antes da Marvel chegar aos cinemas com suas grandes produções, o Super Homem e seus companheiros eram os personagens mais notórios do gênero. Em The Boys, o Homem de Aço é representado pelo Capitão Pátria (Antony Starr), que utiliza a bandeira dos Estados Unidos como capa (referenciando, também, o Capitão América, da Marvel).

Por que considero importante pontuar isso? Super Homem e Capitão América são os clássicos heróis patriotas americanos, extremamente morais e extremamente perfeitos — um é alienígena e o outro é um humano geneticamente modificado. Não há garantias naturais que tornem esses seres extremamente poderosos em criaturas éticas e morais. The Boys não tem medo de mostrar como o poder ilimitado pode corromper qualquer um. Aqui, a humanidade está à mercê da piedade do Capitão Pátria, um super-herói narcisista e cruel.

Não apenas ele, como todos os outros membros de Os Sete possuem uma complexibilidade mais profunda, que vai sendo desenvolvida no decorrer da trama: Rainha Maeve (Dominique McElligott) é a Mulher-Maravilha que perdeu as esperanças e, desiludida, cedeu ao sistema; Trem-Bala (Jessie Usher) é o The Flash egocêntrico e viciado em drogas; Profundo (Chace Crawford) é a piada pronta da equipe, uma referência pop ao Aquaman; Sombra Negra (Nathan Mitchell) não fala nada a temporada inteira, mas é um dos personagens mais lembrados pelo público, claramente uma alusão ao Batman; Translúcido (Alex Hassell), é o personagem ao qual não há uma referência clara, além do desejo secreto de qualquer mortal em se tornar invisível às vezes; e, por fim, Luz-Estrela (Erin Moriarty), que é a novata do time — mas uma das personagens mais importantes da série.

[caption id="attachment_60244" align="aligncenter" width="1170"] Foto: Divulgação/IMDB[/caption]

Luz-Estrela é a representante de todos os pré-conceitos que temos formados sobre os super-heróis: genuinamente boa e pura. Ela se baseia em conceitos éticos, mas frustra-se ao conhecer a realidade sórdida e marketeira da empresa Vought, proprietária de Os Sete. Luz-Estrela é uma garota corajosa e justa — seu objetivo é salvar pessoas. Contudo, a personagem adiciona uma camada extra de complexabilidade ao representar a dicotomia existente entre os conceitos de ética e moralidade. Ela e Capitão Pátria simbolizam a antítese perfeita entre expectativa e realidade: Luz-Estrela é aquilo que esperávamos de um super-herói, enquanto Capitão Pátria nos oferece uma realidade intragável.

Para além, Os Caras, que dão nome à série, buscam justiça da forma mais grotesca e sangrenta possível, pois, veja bem, não é fácil matar um super-herói. Com eles, aprendemos que nem tudo o quê é justo, ou ético, é também moral. Se entendermos a moral como conjunto de normas sociais que determinam comportamentos, a ética seria o ponto de vista particular dessas regras. Logo, o agir dos personagens implica em atos ilegais e imorais. A exemplo disso, Bruto é o líder do grupo: um cara violento e sarcástico. O personagem tem a empatia do público, mas age de forma irracional, muitas vezes.

[caption id="attachment_60240" align="aligncenter" width="1170"] Foto: Divulgação/IMDB[/caption]

The Boys é uma série que não poupa tripas, sangue e cabeças rolando — o gore vem de graça e com motivo: impactar o espectador. É através de cenas como essas que podemos ter um mínimo vislumbre do tamanho do poder do Capitão Pátria. O espectador é fisgado pelo absurdo e a evolução dos personagens que são protagonizados por um elenco de primeiríssima qualidade e que raramente deixa a desejar nas atuações. A segunda temporada de The Boys ainda não teve sua data de estreia revelada, mas especula-se que possa ser lançada ainda este ano.

Assista ao trailer de The Boys:

Por Dyessica Abadi

Uma obra ficcional é bem sucedida quando nos faz refletir sobre a nossa própria realidade. Há anos que o homem utiliza-se de dicotomias baseadas em binarismos para defender conceitos de moralidade: o bem e o mal; o justo e o injusto. Entretanto, a natureza humana é muito mais complexa — e interessante — do que essas simplórias concepções. Em meio a uma indústria saturada pelo gênero de super-heróis (oi, Marvel), The Boys é uma série que apresenta uma trama cheia de seres poderosos, mas desprezíveis.

Foto: Divulgação/IMDB

Os quadrinhos de Garth Ennis foram a base para The Boys, série da Amazon Prime dividida em oito episódios, que mostra a nossa realidade contemporânea sendo habitada por super-heróis. Desenvolvido por Evan Goldberg e Seth Rogen, a série ainda conta com Eric Kripke, um dos nomes mais importantes da televisão estadunidense — ele é o criador de Supernatural. Inicialmente, a história acompanha o personagem de Hughie Campbell (Jack Quaid), um jovem comum que assiste ao brutal assassinato da namorada em um acidente envolvendo um super-herói. Após perceber o desprezo e a falta de culpa dele, Hughie entende que o sistema é pensado para inocentar os poderosos. Desamparado, o rapaz encontra esperança em conseguir justiça com a ajuda de Billy Bruto (Kartl Urban) e outros desajustados: Francês (Tomer Kapon), Fêmea (Karen Fukuhara) e Leitinho (Laz Alonso).

Cinematograficamente falando, The Boys relembra o sadismo de Watchmen (2009), mas cuidadosamente atualizado para a era digital. O filme dirigido por Zack Snyder é uma adaptação da história em quadrinhos escrita por Alan Moore e publicada pela DC Comics. A trama de Watchman é situada em 1985, onde super-heróis existem e seus atos influenciam a política mundial — o que torna The Boys não muito distante do filme. Ambas histórias tratam de uma realidade ficcional com supers e que acabam abordando assuntos pertinentes a nossa realidade.

A série sucede ao apresentar uma camada de metalinguagem que cativa e, ao mesmo tempo, satiriza o gênero. Em tempos de digital influencers, os super-heróis tem seus feitos monetizados com filmes, vídeos no Instagram, campanhas de marketing e assim por diante. É insuportável perceber que, se os supers realmente existissem, essa possivelmente seria a nossa realidade. Até o lançamento de Vingadores: Ultimato, a Marvel Studios era avaliada em 18 bilhões de dólares — o maior valor já feito por uma única franquia. A empresa sucedeu e tornou-se uma gigante em Hollywood quando desenvolveu o conceito de Universo Compartilhado (Universo Cinematográfico Marvel, ou, no original, Marvel Cinematic Universe). 

Foto: Divulgação/IMDB

As referências são inevitáveis: o grupo de super-heróis chamado Os Sete são claramente alusivos à Liga da Justiça da DC Comics. Antes da Marvel chegar aos cinemas com suas grandes produções, o Super Homem e seus companheiros eram os personagens mais notórios do gênero. Em The Boys, o Homem de Aço é representado pelo Capitão Pátria (Antony Starr), que utiliza a bandeira dos Estados Unidos como capa (referenciando, também, o Capitão América, da Marvel).

Por que considero importante pontuar isso? Super Homem e Capitão América são os clássicos heróis patriotas americanos, extremamente morais e extremamente perfeitos — um é alienígena e o outro é um humano geneticamente modificado. Não há garantias naturais que tornem esses seres extremamente poderosos em criaturas éticas e morais. The Boys não tem medo de mostrar como o poder ilimitado pode corromper qualquer um. Aqui, a humanidade está à mercê da piedade do Capitão Pátria, um super-herói narcisista e cruel.

Não apenas ele, como todos os outros membros de Os Sete possuem uma complexibilidade mais profunda, que vai sendo desenvolvida no decorrer da trama: Rainha Maeve (Dominique McElligott) é a Mulher-Maravilha que perdeu as esperanças e, desiludida, cedeu ao sistema; Trem-Bala (Jessie Usher) é o The Flash egocêntrico e viciado em drogas; Profundo (Chace Crawford) é a piada pronta da equipe, uma referência pop ao Aquaman; Sombra Negra (Nathan Mitchell) não fala nada a temporada inteira, mas é um dos personagens mais lembrados pelo público, claramente uma alusão ao Batman; Translúcido (Alex Hassell), é o personagem ao qual não há uma referência clara, além do desejo secreto de qualquer mortal em se tornar invisível às vezes; e, por fim, Luz-Estrela (Erin Moriarty), que é a novata do time — mas uma das personagens mais importantes da série.

Foto: Divulgação/IMDB

Luz-Estrela é a representante de todos os pré-conceitos que temos formados sobre os super-heróis: genuinamente boa e pura. Ela se baseia em conceitos éticos, mas frustra-se ao conhecer a realidade sórdida e marketeira da empresa Vought, proprietária de Os Sete. Luz-Estrela é uma garota corajosa e justa — seu objetivo é salvar pessoas. Contudo, a personagem adiciona uma camada extra de complexabilidade ao representar a dicotomia existente entre os conceitos de ética e moralidade. Ela e Capitão Pátria simbolizam a antítese perfeita entre expectativa e realidade: Luz-Estrela é aquilo que esperávamos de um super-herói, enquanto Capitão Pátria nos oferece uma realidade intragável.

Para além, Os Caras, que dão nome à série, buscam justiça da forma mais grotesca e sangrenta possível, pois, veja bem, não é fácil matar um super-herói. Com eles, aprendemos que nem tudo o quê é justo, ou ético, é também moral. Se entendermos a moral como conjunto de normas sociais que determinam comportamentos, a ética seria o ponto de vista particular dessas regras. Logo, o agir dos personagens implica em atos ilegais e imorais. A exemplo disso, Bruto é o líder do grupo: um cara violento e sarcástico. O personagem tem a empatia do público, mas age de forma irracional, muitas vezes.

Foto: Divulgação/IMDB

The Boys é uma série que não poupa tripas, sangue e cabeças rolando — o gore vem de graça e com motivo: impactar o espectador. É através de cenas como essas que podemos ter um mínimo vislumbre do tamanho do poder do Capitão Pátria. O espectador é fisgado pelo absurdo e a evolução dos personagens que são protagonizados por um elenco de primeiríssima qualidade e que raramente deixa a desejar nas atuações. A segunda temporada de The Boys ainda não teve sua data de estreia revelada, mas especula-se que possa ser lançada ainda este ano.

Assista ao trailer de The Boys:

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