CRÍTICA: O Poço, é o novo filme impactante da Netflix

Por Dyessica Abadi


O Poço é um filme espanhol que recentemente adentrou o catálogo da Netflix e vem impactando os espectadores desavisados. Com uma premissa simples, o longa é uma fábula gore sobre a estrutura socioeconômica na qual vivemos — aqui, intenções simples de justiça ou solidariedade são vistos apenas como atos políticos. Em meio à loucura circunstancial do protagonista, somos levados a digerir e refletir sobre a realidade do nosso próprio Poço.

O filme marca a estreia do cineasta espanhol Galder Gaztelu-Urrutia na direção. O Poço conta a história de Goreng (Ivan Massagué), um homem que, por vontade própria, decide entrar na prisão vertical que dá nome ao longa. Lá, ele conhece seu primeiro companheiro de cela, o ancião Trimagasi (Zorion Eguileor). Através da conduta civilizada de Goreng e dos seus questionamentos a Trimagasi, passamos a conhecer a lógica do Poço: diariamente, uma plataforma com um luxuoso banquete se move do primeiro ao último nível — enquanto os primeiros se empanturram com a abundância, os últimos comem uns aos outros no desespero de não morrer de fome.



O que torna a jornada do protagonista interessante é que os princípios de moralidade e civilidade vão sendo gradativamente corrompidos pelo sistema. A cada mês no Poço, as duplas trocam aleatoriamente de lugar. Quem estava no nível inicial pode ir parar no “fundo do poço”, e vice-versa — nessa dinâmica, todos os presos passam pelas mesmas situações. É aqui que o mais curioso se apresenta: as pessoas são diferentes, mas as atitudes são as mesmas. Enquanto mentor inicial, Trimagasi representa a barbárie daquele lugar e demonstra o pensamento de máximas comuns àqueles que detêm o poder.

No Poço, as pessoas se adaptam à lógica edificada da administração. Porém, alguns personagens emergem para dar luz às loucuras do calabouço. Imoguiri (Antonia San Juan) é a segunda companheira de cárcere de Goreng e relembra o protagonista dos princípios de “alguém que trouxe um livro” em meio ao caos. Os debates sobre a “solidariedade espontânea” reforçam que haveria comida para todos, caso as pessoas se libertassem da ganância. Aqui, essa mensagem luta com o sonho dos oprimidos em se tornarem o opressor — mesmo que todos passem por todos os níveis, aqueles que estiverem temporariamente nos níveis mais afortunados irão usurpar aqueles que ficaram em níveis abaixo. 



O Poço não poupa cenas gore. Não é indicado assistir esse filme comendo alguma coisa. O sangue e as vísceras atuam visualmente no filme para chocar o espectador. A violência gratuita demonstra toda a irracionalidade primitiva do ser humano. Em seus minutos finais, Goreng entende a lógica visceral da prisão e reformula a frase de Imoguiri: “nenhuma mudança é espontânea”. A jornada do herói messiânico foi necessária para que ele pudesse criar compaixão para com os mais necessitados. Além de uma fábula socioeconômica, o Poço também serve como apologia às misérias e loucuras individuais de cada pessoa.

O filme relembra outras produções nas quais os espaços físicos são circunstanciais para demonstrar a barbárie da natureza humana: O Cubo (1997) e Circle (2015). Porém, diferentes desses longas, o mérito de O Poço é apresentar uma trama ambígua e pouco explicativa, na qual o espectador está à mercê da sua própria interpretação e da maneira como observa o mundo. Aqui, as pessoas são iguais — o que diferencia elas são seus lugares presentes na escala social. O Poço é um filme de terror que questiona a sociedade atual.

Assista ao trailer:

Por Dyessica Abadi

O Poço é um filme espanhol que recentemente adentrou o catálogo da Netflix e vem impactando os espectadores desavisados. Com uma premissa simples, o longa é uma fábula gore sobre a estrutura socioeconômica na qual vivemos — aqui, intenções simples de justiça ou solidariedade são vistos apenas como atos políticos. Em meio à loucura circunstancial do protagonista, somos levados a digerir e refletir sobre a realidade do nosso próprio Poço.

O filme marca a estreia do cineasta espanhol Galder Gaztelu-Urrutia na direção. O Poço conta a história de Goreng (Ivan Massagué), um homem que, por vontade própria, decide entrar na prisão vertical que dá nome ao longa. Lá, ele conhece seu primeiro companheiro de cela, o ancião Trimagasi (Zorion Eguileor). Através da conduta civilizada de Goreng e dos seus questionamentos a Trimagasi, passamos a conhecer a lógica do Poço: diariamente, uma plataforma com um luxuoso banquete se move do primeiro ao último nível — enquanto os primeiros se empanturram com a abundância, os últimos comem uns aos outros no desespero de não morrer de fome.

O que torna a jornada do protagonista interessante é que os princípios de moralidade e civilidade vão sendo gradativamente corrompidos pelo sistema. A cada mês no Poço, as duplas trocam aleatoriamente de lugar. Quem estava no nível inicial pode ir parar no “fundo do poço”, e vice-versa — nessa dinâmica, todos os presos passam pelas mesmas situações. É aqui que o mais curioso se apresenta: as pessoas são diferentes, mas as atitudes são as mesmas. Enquanto mentor inicial, Trimagasi representa a barbárie daquele lugar e demonstra o pensamento de máximas comuns àqueles que detêm o poder.

No Poço, as pessoas se adaptam à lógica edificada da administração. Porém, alguns personagens emergem para dar luz às loucuras do calabouço. Imoguiri (Antonia San Juan) é a segunda companheira de cárcere de Goreng e relembra o protagonista dos princípios de “alguém que trouxe um livro” em meio ao caos. Os debates sobre a “solidariedade espontânea” reforçam que haveria comida para todos, caso as pessoas se libertassem da ganância. Aqui, essa mensagem luta com o sonho dos oprimidos em se tornarem o opressor — mesmo que todos passem por todos os níveis, aqueles que estiverem temporariamente nos níveis mais afortunados irão usurpar aqueles que ficaram em níveis abaixo. 

O Poço não poupa cenas gore. Não é indicado assistir esse filme comendo alguma coisa. O sangue e as vísceras atuam visualmente no filme para chocar o espectador. A violência gratuita demonstra toda a irracionalidade primitiva do ser humano. Em seus minutos finais, Goreng entende a lógica visceral da prisão e reformula a frase de Imoguiri: “nenhuma mudança é espontânea”. A jornada do herói messiânico foi necessária para que ele pudesse criar compaixão para com os mais necessitados. Além de uma fábula socioeconômica, o Poço também serve como apologia às misérias e loucuras individuais de cada pessoa.

O filme relembra outras produções nas quais os espaços físicos são circunstanciais para demonstrar a barbárie da natureza humana: O Cubo (1997) e Circle (2015). Porém, diferentes desses longas, o mérito de O Poço é apresentar uma trama ambígua e pouco explicativa, na qual o espectador está à mercê da sua própria interpretação e da maneira como observa o mundo. Aqui, as pessoas são iguais — o que diferencia elas são seus lugares presentes na escala social. O Poço é um filme de terror que questiona a sociedade atual.

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