CRÍTICA: O Diabo de Cada Dia, filme com Tom Holland é o mais assistido da Netflix

Por Dyessica Abadi

Não há dúvidas de que 2020 foi um ano completamente atípico. A pandemia de Covid-19 impactou imensamente a produção cultural: fechou cinema, atrasou lançamentos e interrompeu filmagens. Neste cenário, as produções feitas para o streaming cresceram e se consolidaram ainda mais. Atualmente, o filme O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time, do original) está em 1º lugar no Top 10 mais assistidos da Netflix no Brasil. Com uma coleção de histórias trágicas que se cruzam, o filme conta com um grande elenco de atores em uma trama cíclica.

O longa é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock — que também é o narrador em off —, O Mal Nosso de Cada Dia. A história se passa no interior dos Estados Unidos, entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, onde diversos personagens, imorais e/ou traumatizados, são afetados tanto pelo passado, quanto pelo presente.

Willard Russell (Bill Skarsgård) é um veterano de guerra que tem sua fé deturpada após voltar do combate. O primeiro arco do longa conta também outras histórias protagonizadas pelos personagens do xerife ambicioso, Lee Bodecker (Sebastian Stan), do casal serial killer, Carl Henderson (Jason Clarke) e Sandy Handerson (Riley Keough), e do profeta alienado Roy Laferty (Harry Melling).

[caption id="attachment_66333" align="aligncenter" width="700"] Foto: Divulgação/Netflix[/caption]

Já o segundo ato se passa no presente, onde o jovem Arkin Russell (Tom Holland), filho de Willard, luta para proteger quem ele ama ao mesmo tempo em que vive uma batalha com os traumas deixados pelo seu pai. Arkin mora com a avó e a irmã de criação (Eliza Scanlen), que é abusada pelo pastor Preston (Robert Pattinson). A partir disso, o jovem segue uma trama de vingança que o leva ao seu passado, cruzando o caminho de outros personagens.

De início ao fim, Donald Ray Pollock narra a história de O Diabo de Cada Dia de maneira redundante — mesmo que não houvesse o narrador, o espectador seria capaz de entender tudo o que está acontecendo. Nesse caso, o filme deixa um sentimento ambíguo, pois ora explica exatamente o que está se passando em cena, ora usa imagens extremamente explicitas para ilustrar a violência da narrativa. Apesar disso, o que fica é o tom interiorano do sotaque pesado do narrador e personagens, o que tornam com que toda o filme pareça uma daquelas histórias contadas por um senhor sentado em um bar, sem pressa e meio orgulhoso dos "causos" de sua terra.

Outro grande feito do filme, sem dúvida, está na qualidade das atuações. Embora produções de diversos núcleos e com grande elenco tendam a ser rasas em profundidade, isso não acontece em O Diabo de Cada Dia. É claro que, por misturar diversos núcleos, o longa peca em não desenvolver melhor algum de seus personagens, como é o caso de Roy e Preston, por exemplo. A relação de ambos pastores com a nossa realidade são perturbadoras ao mostrar os dois extremos da alienação religiosa: daqueles que se entregam totalmente a uma crença e daqueles que a usam como ferramenta de poder e transgressão.

[caption id="attachment_66334" align="aligncenter" width="700"] Foto: Divulgação/Netflix[/caption]

A ambientalização do interior dos Estados Unidos, entre os anos de 45 e 55, demonstra muito a mercê dos personagens ao destino. Sustentados apenas pela família, trabalho e religião, a violência seria uma realidade difícil de fugir — tanto que, a maioria dos personagens cometem atrocidades sempre "em nome de Deus", camuflando sua verdadeira natureza. Neste ponto, é irônico perceber que os únicos personagens mais sinceros e autênticos na trama são os seriais killers, Carl e Sandy. Ainda assim, o filme carece de um elemento que seria capaz de elevar a qualidade da obra — as motivações do que se encontram por trás das camadas espirituais dos personagens.

Definitivamente, O Diabo de Cada Dia é um filme atual e que toca na ferida aberta dos males humanos (e não do Diabo, como diz o título) e do fanatismo cego. O longa possui vários altos e baixos, acabando por ser uma produção medianamente boa. O melhor que a história traz é a capacidade de fazer o espectador pensar sobre o quanto a vida pode ser perigosamente cíclica, principalmente o quanto estamos inclinados a sermos como nossos pais, ou como a vida é um longo caminhar entre desgraças. Por fim, temos uma experiência emocional poderosa.

Assista ao trailer de O Diabo de Cada Dia:



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Por Dyessica Abadi

Não há dúvidas de que 2020 foi um ano completamente atípico. A pandemia de Covid-19 impactou imensamente a produção cultural: fechou cinema, atrasou lançamentos e interrompeu filmagens. Neste cenário, as produções feitas para o streaming cresceram e se consolidaram ainda mais. Atualmente, o filme O Diabo de Cada Dia (The Devil All The Time, do original) está em 1º lugar no Top 10 mais assistidos da Netflix no Brasil. Com uma coleção de histórias trágicas que se cruzam, o filme conta com um grande elenco de atores em uma trama cíclica.

O longa é uma adaptação do livro de Donald Ray Pollock — que também é o narrador em off —, O Mal Nosso de Cada Dia. A história se passa no interior dos Estados Unidos, entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, onde diversos personagens, imorais e/ou traumatizados, são afetados tanto pelo passado, quanto pelo presente.

Willard Russell (Bill Skarsgård) é um veterano de guerra que tem sua fé deturpada após voltar do combate. O primeiro arco do longa conta também outras histórias protagonizadas pelos personagens do xerife ambicioso, Lee Bodecker (Sebastian Stan), do casal serial killer, Carl Henderson (Jason Clarke) e Sandy Handerson (Riley Keough), e do profeta alienado Roy Laferty (Harry Melling).

Foto: Divulgação/Netflix

Já o segundo ato se passa no presente, onde o jovem Arkin Russell (Tom Holland), filho de Willard, luta para proteger quem ele ama ao mesmo tempo em que vive uma batalha com os traumas deixados pelo seu pai. Arkin mora com a avó e a irmã de criação (Eliza Scanlen), que é abusada pelo pastor Preston (Robert Pattinson). A partir disso, o jovem segue uma trama de vingança que o leva ao seu passado, cruzando o caminho de outros personagens.

De início ao fim, Donald Ray Pollock narra a história de O Diabo de Cada Dia de maneira redundante — mesmo que não houvesse o narrador, o espectador seria capaz de entender tudo o que está acontecendo. Nesse caso, o filme deixa um sentimento ambíguo, pois ora explica exatamente o que está se passando em cena, ora usa imagens extremamente explicitas para ilustrar a violência da narrativa. Apesar disso, o que fica é o tom interiorano do sotaque pesado do narrador e personagens, o que tornam com que toda o filme pareça uma daquelas histórias contadas por um senhor sentado em um bar, sem pressa e meio orgulhoso dos “causos” de sua terra.

Outro grande feito do filme, sem dúvida, está na qualidade das atuações. Embora produções de diversos núcleos e com grande elenco tendam a ser rasas em profundidade, isso não acontece em O Diabo de Cada Dia. É claro que, por misturar diversos núcleos, o longa peca em não desenvolver melhor algum de seus personagens, como é o caso de Roy e Preston, por exemplo. A relação de ambos pastores com a nossa realidade são perturbadoras ao mostrar os dois extremos da alienação religiosa: daqueles que se entregam totalmente a uma crença e daqueles que a usam como ferramenta de poder e transgressão.

Foto: Divulgação/Netflix

A ambientalização do interior dos Estados Unidos, entre os anos de 45 e 55, demonstra muito a mercê dos personagens ao destino. Sustentados apenas pela família, trabalho e religião, a violência seria uma realidade difícil de fugir — tanto que, a maioria dos personagens cometem atrocidades sempre “em nome de Deus”, camuflando sua verdadeira natureza. Neste ponto, é irônico perceber que os únicos personagens mais sinceros e autênticos na trama são os seriais killers, Carl e Sandy. Ainda assim, o filme carece de um elemento que seria capaz de elevar a qualidade da obra — as motivações do que se encontram por trás das camadas espirituais dos personagens.

Definitivamente, O Diabo de Cada Dia é um filme atual e que toca na ferida aberta dos males humanos (e não do Diabo, como diz o título) e do fanatismo cego. O longa possui vários altos e baixos, acabando por ser uma produção medianamente boa. O melhor que a história traz é a capacidade de fazer o espectador pensar sobre o quanto a vida pode ser perigosamente cíclica, principalmente o quanto estamos inclinados a sermos como nossos pais, ou como a vida é um longo caminhar entre desgraças. Por fim, temos uma experiência emocional poderosa.

Assista ao trailer de O Diabo de Cada Dia:

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