CRÍTICA: Milagre na Cela 7, filme turco da Netflix traz mensagem de esperança

Por Dyessica Abadi

É formidável perceber como os serviços de streaming estão reunindo e popularizando séries e obras cinematográficas de diversas nacionalidades. Nas últimas semanas, o filme turco Milagre na Cela 7 (2019) da Netflix ganhou notoriedade pelo público brasileiro nas redes sociais, com muitos relatos de choro durante a sessão. O drama trata sobre questões sensíveis e envolve um raro ato de bondade — um milagre — vindo de onde menos se espera.

O longa é remake de uma produção coreana de mesmo nome lançada em 2013 e que também possui uma refilmagem filipina do ano passado. A versão da Netflix é dirigida por Mehmet Ada Öztekin e narra a história de Memo (Aras Bulut Iynemli), um deficiente intelectual, e sua filha, Ova (Nisa Sofiya Aksongur). Viúvo, ele conta com a ajuda da avó, Fatma (Celile Toyon Uysal) para criar a menina em um pequeno vilarejo na Turquia.

Memo é um homem amável e querido pelos habitantes. Ova sofre alguns momentos de bullying no colégio pela condição especial do pai, — mas isso não a faz amá-lo menos. A vida da família muda quando Memo se envolve no acidente fatal que mata a filha de um importante tenente do exército (Yurdaer Okur), que ordena a captura do rapaz, enviando-o para uma prisão enquanto aguarda a ordem de execução da pena de morte.

[caption id="attachment_61343" align="aligncenter" width="600"] Foto: Divulgação/Netflix[/caption]

Antes de tudo, é importante ressaltar que a origem estrangeira do filme tem um fator importante: a Turquia é um país conservador e possui o islamismo como principal religião. Logo, é importante que o espectador deixe qualquer preconceito religioso de lado e abra-se para entender outros potenciais da palavra “milagre”. Aqui, ela não está atrelada a alguma divindade — pelo contrário, a expressão traz esperança para quem desacreditou no potencial da humanidade.

A história de Milagre na Cela 7 não é original. O espectador pode naturalmente relembrar de outras produções que trouxeram histórias similares, como os dramas hollywoodianos Uma Lição de Amor (2001), À Espera de Um Milagre (1999) e Um Sonho de Liberdade (1994) — todos com muito mais profundidade em cada um dos temas que se propõem.

Chegando à prisão, Memo é espancado tanto pelos oficiais, quando pelos colegas de cela quando descobrem o motivo de seu encarceramento. A adaptação dele no local é difícil, mas logo a situação muda quando o rapaz defende Askorozlu (Ilker Aksum), o “chefe” da cela, de uma tentativa de assassinato. Após o incidente, o mafioso consegue exerce sua influência fora da prisão para trazer Ova para encontrar o pai. A transição desses dois momentos acontece tão rapidamente, que fica a impressão de superficialidade ao espectador quanto a situação e as relações na cela.

As atuações do filme não chegam a serem dignas de Oscar (como alguns falam por aí), mas elas são capazes de entregar a história com comoção. Aras Bulut Iynemli, que interpreta Memo, faz um trabalho excelente, sendo capaz de cativar o público quando contracena tanto com a pequena, quanto com os colegas de cárcere. Faltam alguns toques mais subjetivos à Nisa Sofiya Aksongur, que dá vida à Ova, mas é indiscutível que ela é extremamente encantadora.

[caption id="attachment_61344" align="aligncenter" width="600"] Foto: Divulgação/Netflix[/caption]

Milagre na Cela 7 pode ser considerado como um simples “dramalhão”, tendo em vista a trilha sonora apelativa e algumas atuações rasas. Porém, esses argumentos não tiram a validade do filme em trazer à tona questões extremamente importantes ao espectador — principalmente se considerarmos o momento político e social que estamos vivendo.

Atualmente, a população cedeu a si mesma a liberdade de se tornar juiz, júri e carrasco, principalmente após a era digital, onde qualquer um pode dizer o que bem entender e condenar qualquer um baseado em crenças extremistas nas redes sociais. Logo, ter um filme turco ganhando popularidade em um serviço norte-americano de filmes e séries no Brasil traz muitas questões a serem pensadas e questionadas.

Percebemos a cada dia uma crescente xenofóbica em diversos países do mundo, seja em relação às etnias, culturas, ou religiões. Mesmo que Milagre na Cela 7 trate sobre crenças que não são as nossas, ele humaniza o olhar do espectador sobre o diferente — e, no final, podemos perceber que somos todos apenas pessoas.

[caption id="attachment_61345" align="aligncenter" width="600"] Foto: Divulgação/Netflix[/caption]

O ápice do longa está no potencial em fazer o espectador questionar pautas como abuso de poder, pena de morte, culpa de pecadores, a capacidade de cada um em perdoar, entre outras tantas certezas que temos por absolutas — mas que acabam por nos tornar cegos para outras verdades.  Mesmo envolvendo um acidente terrível, o longa não perde a leveza durante os momentos mais dramáticos.

Enquanto arte, o cinema é uma importante ferramenta crítica acerca da maneira como vivemos. Não há como ter certezas quanto ao objetivo da história de Milagre na Cela 7. Talvez seja livrar o espectador de certezas cegas e abri-lo ao questionamento. Em tempos intolerantes e inóspitos, uma obra, mesmo que simplória, é extremamente importante para nos relembrarmos sobre a humanidade.

Assista ao trailer:

Por Dyessica Abadi

É formidável perceber como os serviços de streaming estão reunindo e popularizando séries e obras cinematográficas de diversas nacionalidades. Nas últimas semanas, o filme turco Milagre na Cela 7 (2019) da Netflix ganhou notoriedade pelo público brasileiro nas redes sociais, com muitos relatos de choro durante a sessão. O drama trata sobre questões sensíveis e envolve um raro ato de bondade — um milagre — vindo de onde menos se espera.

O longa é remake de uma produção coreana de mesmo nome lançada em 2013 e que também possui uma refilmagem filipina do ano passado. A versão da Netflix é dirigida por Mehmet Ada Öztekin e narra a história de Memo (Aras Bulut Iynemli), um deficiente intelectual, e sua filha, Ova (Nisa Sofiya Aksongur). Viúvo, ele conta com a ajuda da avó, Fatma (Celile Toyon Uysal) para criar a menina em um pequeno vilarejo na Turquia.

Memo é um homem amável e querido pelos habitantes. Ova sofre alguns momentos de bullying no colégio pela condição especial do pai, — mas isso não a faz amá-lo menos. A vida da família muda quando Memo se envolve no acidente fatal que mata a filha de um importante tenente do exército (Yurdaer Okur), que ordena a captura do rapaz, enviando-o para uma prisão enquanto aguarda a ordem de execução da pena de morte.

Foto: Divulgação/Netflix

Antes de tudo, é importante ressaltar que a origem estrangeira do filme tem um fator importante: a Turquia é um país conservador e possui o islamismo como principal religião. Logo, é importante que o espectador deixe qualquer preconceito religioso de lado e abra-se para entender outros potenciais da palavra “milagre”. Aqui, ela não está atrelada a alguma divindade — pelo contrário, a expressão traz esperança para quem desacreditou no potencial da humanidade.

A história de Milagre na Cela 7 não é original. O espectador pode naturalmente relembrar de outras produções que trouxeram histórias similares, como os dramas hollywoodianos Uma Lição de Amor (2001), À Espera de Um Milagre (1999) e Um Sonho de Liberdade (1994) — todos com muito mais profundidade em cada um dos temas que se propõem.

Chegando à prisão, Memo é espancado tanto pelos oficiais, quando pelos colegas de cela quando descobrem o motivo de seu encarceramento. A adaptação dele no local é difícil, mas logo a situação muda quando o rapaz defende Askorozlu (Ilker Aksum), o “chefe” da cela, de uma tentativa de assassinato. Após o incidente, o mafioso consegue exerce sua influência fora da prisão para trazer Ova para encontrar o pai. A transição desses dois momentos acontece tão rapidamente, que fica a impressão de superficialidade ao espectador quanto a situação e as relações na cela.

As atuações do filme não chegam a serem dignas de Oscar (como alguns falam por aí), mas elas são capazes de entregar a história com comoção. Aras Bulut Iynemli, que interpreta Memo, faz um trabalho excelente, sendo capaz de cativar o público quando contracena tanto com a pequena, quanto com os colegas de cárcere. Faltam alguns toques mais subjetivos à Nisa Sofiya Aksongur, que dá vida à Ova, mas é indiscutível que ela é extremamente encantadora.

Foto: Divulgação/Netflix

Milagre na Cela 7 pode ser considerado como um simples “dramalhão”, tendo em vista a trilha sonora apelativa e algumas atuações rasas. Porém, esses argumentos não tiram a validade do filme em trazer à tona questões extremamente importantes ao espectador — principalmente se considerarmos o momento político e social que estamos vivendo.

Atualmente, a população cedeu a si mesma a liberdade de se tornar juiz, júri e carrasco, principalmente após a era digital, onde qualquer um pode dizer o que bem entender e condenar qualquer um baseado em crenças extremistas nas redes sociais. Logo, ter um filme turco ganhando popularidade em um serviço norte-americano de filmes e séries no Brasil traz muitas questões a serem pensadas e questionadas.

Percebemos a cada dia uma crescente xenofóbica em diversos países do mundo, seja em relação às etnias, culturas, ou religiões. Mesmo que Milagre na Cela 7 trate sobre crenças que não são as nossas, ele humaniza o olhar do espectador sobre o diferente — e, no final, podemos perceber que somos todos apenas pessoas.

Foto: Divulgação/Netflix

O ápice do longa está no potencial em fazer o espectador questionar pautas como abuso de poder, pena de morte, culpa de pecadores, a capacidade de cada um em perdoar, entre outras tantas certezas que temos por absolutas — mas que acabam por nos tornar cegos para outras verdades.  Mesmo envolvendo um acidente terrível, o longa não perde a leveza durante os momentos mais dramáticos.

Enquanto arte, o cinema é uma importante ferramenta crítica acerca da maneira como vivemos. Não há como ter certezas quanto ao objetivo da história de Milagre na Cela 7. Talvez seja livrar o espectador de certezas cegas e abri-lo ao questionamento. Em tempos intolerantes e inóspitos, uma obra, mesmo que simplória, é extremamente importante para nos relembrarmos sobre a humanidade.

Assista ao trailer:

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