Até os super-heróis? Como produtos da cultura pop estão se transformando em épocas de isolamento social

Após pandemia do coronavírus, grandes produções do cinema em 2020 como Viúva Negra e Mulher Maravilha — 1984 tiveram seus lançamentos adiados

Por Dyessica Abadi


Não se abale, pois até os super-heróis tiveram que entrar na quarentena. A pandemia do Coronavírus mudou o calendário de produção e lançamento de diversos filmes em 2020 — entre eles grandes estreias como Viúva Negra, Mulher Maravilha — 1984, Os Novos Mutantes, além de outros títulos como 007 – Sem Tempo Para Morrer, Mulan, Velozes e Furiosos 9, por exemplo. Nos últimos anos, a indústria do cinema já passava por transformações no que tange à adaptação de novas tecnologias. Hoje, a epidemia de nível mundial renova e dá força ao debate sobre as transformações de produção e consumo de produtos da cultura pop.

Shoppings fechados. Salas de cinema vazias. Indústria parada. Ainda não se sabe quando a vida voltará à rotina “normal”. Em diversos lugares do mundo, a população encontra-se em isolamento domiciliar e a Organização Mundial da Saúde recomenda evitar aglomerações. Nesse cenário, torna-se inviável para Hollywood lançar filmes de orçamento milionário. A Marvel Studios, por exemplo, terá todo o seu calendário de lançamentos afetado, caso essa situação não se reverta até o final deste ano. O UCM (Universo Cinematográfico Marvel) instaurou um novo cenário para o cinema dos super-heróis, fomentando a produção de grandes blockbusters e utilizando estratégias de marketing, storytelling e referências à cultura pop. 

Agora, o UCM encontra-se desestabilizado. Em agosto de 2009, a Disney comprou a Marvel Studios por US$ 4 bilhões de dólares. O co-fundador do site de conteúdo nerd/geek Feededigno, Guto Souza, acredita ser viável a possibilidade do uso da plataforma streaming da Disney+ (Disney Plus) em relação aos produtos cinematográficos do UCM. “Tendo em vista que a Disney com a Marvel Studios é atualmente o maior fornecedor de filmes de super-heróis e, há algum tempo, de grandes blockbusters, vejo 2020 como um ano de ‘hiato’ do Universo Cinematográfico Marvel — já que tínhamos poucos lançamentos para esse ano. Acredito que as forças da Disney/Marvel estão direcionadas para estabelecer de forma consolidada seu ‘universo expandido’ do UCM no Disney+. Com os impactos da pandemia de Covid-19 e as paralisações das produções, os calendários serão reajustados para seguir a timeline de eventos do UCM e das séries que terão impactos diretos nos filmes”, analisa.

Produções que tiveram seus calendários afetados pela pandemia do Covid-19


O tradicional calendário anual de lançamentos do cinema foi completamente alterado — atualmente, na melhor das hipóteses, alguns filmes foram adiados até julho e novembro deste ano. O co-fundador do Feededigno e fã de filmes de super-heróis e quadrinhos, Guto Souza, acredita que esse remanejamento de datas não afetará a relação do público com as grande produções: “esperamos 30 anos por uma sequência de Mad Max e em 2015, Mad Max: Estrada da Fúria, do diretor George Miller, nos trouxe uma Furiosa (Charlize Theron) avassaladora e o longa ganhou 6 Oscars e 4 BAFTAs. Então, alguns meses ou uns poucos anos não abalará os fãs de cultura pop e cinéfilos.”

Já o cineasta e historiador, Giodarno Gio, avalia os efeitos do Covid-19 em escala mundial sobre o atraso da realização e lançamento dos produtos cinematográficos:
O calendário já está sendo afetado, tanto de produção, quanto de distribuição. No caso de distribuição, nós tivemos o primeiro caso do filme do 007, que foi jogado para o final do ano, mas daí seguiu com o adiamento de Um Lugar Silencioso - Parte 2, Mulan, Viúva Negra (que ainda está sem data), Minions 2, o coitado do filme dos Novos Mutantes (que está sendo adiado há um tempão, parece ser uma bomba, devem estar dando Graças a Deus para não precisar estar fazendo publicidade para esse filme neste momento), e tem o caso do Velozes e Furiosos 9, que eu acho que foi o mais radical até agora: para não abrir mão da ideia de lançar nos primeiros meses do ano, ao invés de lançar em outro mês, eles jogaram para 2021 a estreia, ainda na janela março-abril. Isso acontece porque são os meses em que essa franquia consegue seu público melhor, até pelo público chinês de Velozes e Furiosos, que é muito, muito grande. Então, nessa pandemia, com foco específico na China, esse seria um filme que seria muito prejudicado. Sobre o calendário de produção, aí é mais preocupante: as séries da Disney Plus foram todas canceladas, Jurassic World 3 adiado, a série do Senhor dos Anéis da Amazon também era uma grande aposta e também teve a produção parada, Animais Fantásticos e Onde Habitam 3, Matrix 4, Avatar 2 também que está sendo feita há 10 anos para mais e a produção parou agora, a Disney também parou os remakes que iam fazer de A Pequena Sereia, Esqueceram de Mim, Peter Pan. Grandes diretores também, não apenas dos Estados Unidos, estão parando as suas produções: teve o Guillermo Del Toro, que tinha uma produção grande que estava acontecendo agora e parou, cineastas orientais como Wong Kar-Wai e Jia Zhangke, os dois chineses, um de Taiwan e outro da China central, também pararam a produção dos seus filmes. Então, afeta tudo que é tipo de cinema, desde o maior até produções menores. Eu mesmo tinha um curta-metragem que iria estar filmando no final de Abril, mas já cancelamos essa filmagem. Então afeta todos os calendários de produção cultural do mundo inteiro”, Giodarno Gio, cineasta gaúcho. 

Plataformas streaming ganhando força em época de quarentena


Recentemente, a Universal Studios disponibilizou no streaming seus filmes que tiveram estreia em março — além disso, os suspenses The Hunt e O Homem Invisível serão lançados diretamente nas plataformas online. Nesse contexto, a Sony também disponibilizou a recente estreia de Bloodshot para aluguel on demand e a Paramount irá lançar a comédia romântica The Lovebirds diretamente na Netflix. Essas ações anteciparam em grande escala as janelas de exibição (período entre o filme estar em cartaz e ficar disponível na internet) que, normalmente, dura três meses.

Logo, a forma como o público consome determinados produtos culturais vem passando por diversas transformações e, agora, ganhou uma nova força. O cineasta e historiador gaúcho, Giodarno Gio, destaca a necessidade de compreender o mercado do cinema em relação às bilheterias oscilantes e retorno econômico das produções  para o streaming. “Já tem um processo acontecendo há alguns anos de legitimação do VoD (Video on Demand) como força econômica na indústria, ainda que os investimentos em produções dessas plataformas não sejam tão grandes quanto os investimentos para produções lançadas no cinema, e isso tem motivo: as bilheterias têm sido bastante oscilantes. O ano de 2019 foi muito icônico nesse sentido, pois tínhamos filmes enormes para sair, como Os Vingadores e Star Wars, os ‘carro-chefe’ da Disney, chegando ao fim de um ciclo. Então não está tudo bem certo quanto a essas bilheterias e como vão se manter, independente do Coronavírus. Agora, com a epidemia, eu acho que urge que os grandes estúdios entendam que o VoD é uma plataforma que é necessária avaliar economicamente como viabilizar, porque o retorno dela é diferente”, ressalta.

Sem previsão de retorno à normalidade, este pode ser o pior ano de bilheterias para o cinema mundial. “Nós estamos no ano em que a Apple lançou o streaming deles, que o Disney Plus está começando as grandes produções, a HBO está reformando a plataforma deles para lançar comercialmente de uma maneira mais consistente do que o HBO Go, a Amazon está se popularizando em outros lugares que não são nos Estados Unidos, e há uma série de outras plataformas em voga. Então, tem que ver como que os estúdios de cinema em si (e isso não só a Disney, mas aos que não tem plataformas de streaming, como a Warner e a Universal) vão se portar nessa mudança de paradigma, porque, nesse ano, vai ser sem dúvida a pior bilheteria em, sei lá, cento e poucos anos. Em muito e muito tempo, acho que desde os anos 20 pelo menos, não deve ter tido um ano com tão pouca bilheteria quanto vai ser em 2020”, destaca o cineasta, Giordano Gio.

Seria este o “fim do cinema” e o “fim dos quadrinhos”?


Na última terça-feira, 31 de março, uma notícia abalou a indústria de quadrinhos impressos: a Diamond Comics anunciou que não iria pagar seus clientes na América do Norte e Reino Unido (entre eles as grandes Marvel e DC Comics) e, anteriormente, a distribuidora anunciou o cancelamento da distribuição de quadrinhos em função do Coronavírus. No primeiro dia do mês de abril, nenhuma editora teve lançamentos nas lojas de quadrinhos — situação que não acontecia há décadas.

Neste cenário, dúvidas quanto à vitalidade de certos modos de exibição e consumo de produtos da cultura pop começam a surgir. “Acredito que vai afetar os nossos modos de assistir, os nossos modos de consumir cultura, mas eu acho que é muito cedo para ser muito catastrófico no sentido de dizer ‘o fim do cinema’, ‘o fim dos quadrinhos impressos’. Eu acho que não é o caso”, salienta Giordano Gio. O co-fundador do Feededigno, Guto Souza, avalia que os quadrinhos ainda tem diversas formas de vida e este não será o seu fim: “vide que desde o século XIX, tínhamos os penny dreadfuls (curtas de histórias de horror que custavam 1 centavo) como forma acessível de entretenimento para os que não tinham acesso aos romances da época. Então, sim, a boa e velha HQ fininha, irá sobreviver”. Além disso, ele relembra que o cinema tradicional é uma experiência sensorial que torna a contemplação do espectador única e, logo, não irá acabar.

Indo ao encontro dessas ideias, a mestre em Comunicação da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos, RS) com formação enfatizada em Cultura Digital, Adriana Amaral, avalia que o atual momento não selará o fim de determinados meios midiáticos, mas que de fato ocorrerá uma transformação nos modos de consumo. “Eu não acredito no fim. Já fizeram vários fins: do rádio, do cinema, da imprensa... Eu acho que as coisas se transmutam e acredito que a gente vai passar por um período de transição. O cinema já era uma coisa bastante elitizada no Brasil, tava muito caro, então acho que já tinha alguns problemas. No entanto, ele tava meio que sobrevivendo em torno desses blockbusters. Eu acho que talvez agora as coisas se reequilibrem, a gente tenha mais espaço para outros tipos de filmes, enfim. Acho que vai ter uma transformação e precisamos pensar de que forma essa produção, esse consumo, vai circular”, salienta.

Apesar de se falar em uma crise das salas de cinema, também se debate sobre o efeito contrário da quarentena — a possibilidade das pessoas reavaliarem e valorizarem o contato humano em certos níveis. Apesar disso, o gaúcho Giordano Gio relembra que o mercado exibidor já passava por um momento de transição de formas de consumo da cultura, especialmente porque as salas exibição de shoppings, como as Multiplex, tinham preços absurdos e as poucas salas de rua e exibição pública pouco público. “E tinha mais uma série de fatores para contribuir com essa crise do mercado exibidor. Acredito que isso saiu do controle realmente, acho uma situação triste, mas eu não acredito que os cinemas vão acabar, até porque é uma experiência completamente diferente do que tu assistir um filme no streaming em casa. Acho que oferece um fenômeno diferente e que sim, vai se repensar um pouco como distribuir, de que maneira tornar acessível o conteúdo ao público, mas não acho que vai matar a maneira de consumir”, completa. 

De qualquer forma, é alta a probabilidade da forma como consumimos cultura pop sofrer uma drástica transformação. A realidade vivida anteriormente à pandemia do Coronavírus, não será mais a mesma após esse período — e isso para todas as situações da vida. Atualmente, não há como prever certas situações, pois o momento todo é muito incerto — mas, definitivamente, as questões voltadas ao digital vêm ganhando forte relevância. Neste quesito, o cineasta Giordano Gio avalia:
Sobre o streaming não ser uma opção para os grandes lançamentos eu acho que é algo que pode mudar. Acho que é algo que pode ter posições revistas em relação a isso. Não sei se conta Mulan e Viúva Negra, mas deve ser algo que a Disney vem estudando loucamente. Acho bem improvável que Viúva Negra seja lançado em VoD, mas não seria tão afirmativo quanto à Mulan. Então, é de se repensar, assim, porque eu acho que existe uma valorização de assistir grandes filmes, considerados espetáculos visuais, no cinema. Mas quando isso se torna inviável por uma força externa, como se resolve né? É algo que está todo mundo discutindo, tanto a nível fenomenológico, quanto a nível econômico. Acredito que é necessário um forte apoio estatal em todos setores, em todos lugares do mundo — mas já que estamos falando de cinema, é preciso de apoio para que o setor de exibição não entre em colapso nesse tempo que vai ficar sem retorno, e também para os setores de distribuição conseguirem se manter com apoio para desenvolvimento e para pós-produção, que são coisas que é possível fazer remotamente em homme office. Então, tem uma série de medidas que precisam acontecer do poder público no mercado que é tradicionalmente privado nos Estados Unidos. É necessária uma reforma, uma restauração do pensar de como fazer essa arte e como manter essa arte viva”. Giordano Gio, cineasta e historiador.

Em 2019, por exemplo, o Netflix lançou em seu catálogo o filme O Irlandês, de Martin Scorcese. O lançamento e produção de filmes alternativos já tem sido uma realidade para as plataformas de streaming. Contudo, ainda há a questão da necessidade de outras formas de fruição dos conteúdos que vão além dos dispositivos disponíveis em casa. “Seguimos para o digital. Contudo, o cinema tradicional ainda é uma experiência e, antes de sua extinção, vejo que cinema e o streaming seguirão lado a lado, mas em velocidades e direções diferentes, obviamente”, conclui o co-fundador do Feededigno, Guto Souza.

Outros produtos midiáticos que poderão ser repensados


Não se trata apenas do cinema: diversos shows, eventos e festivais estão sendo reagendados e os efeitos poderão ser sentidos pelos próximos dois anos. A mudança das estratégias de marketing e divulgação consomem uma grande fatia do orçamento — com menos dinheiro em caixa após a crise, é possível que muito se modifique também com relação a outros produtos culturais. “Esse é um problema é que vai afetar o consumo de todos os produtos midiáticos e dos produtos em geral, como a questão de shows e entretenimento como um todo, porque provavelmente vai demorar bastante tempo para tudo estabilizar e as pessoas poderem sair outra vez”, avalia a pesquisadora com interesse no universo geek, Adriana Amaral

A mestre em Comunicação com enfatize em Cultura Digital ainda destaca as transformações que o segmento musical havia tendo já há algumas décadas. “Os artistas estavam tendo os shows como principal fonte de renda, já que a venda de CDs havia caído. Talvez agora as pessoas entendam a importância do streaming e me preocupa muito a questão dos artistas mais alternativos, que estão fora desse circuito mainstream, maior, então vamos ver como é que isso vai se reconfigurar, como é que o mercado, as pessoas e os artistas vão achar a solução”, conclui Adriana Amaral

Já no que tange ao setor do consumo de produtos físicos de cultura pop, o fã de filmes de super-heróis e quadrinhos, Guto Souza, avalia que este é o momento das grandes empresas investirem na qualidade logística das entregas das mercadorias. “Acredito que em um futuro próximo (pós-isolamento domiciliar) teremos uma grande escassez de produtos físicos para atender toda a demanda do mercado nerd/geek, visto que as grandes empresas da indústria já estão se movendo para atender essa demanda de forma digital (e-book, digital comics, filmes por streaming, games em mídias digitais). Por outro lado, no que tange aos produtos obrigatoriamente físicos (como roupas, acessórios e colecionáveis, por exemplo), as empresas terão que inovar para reduzirem seu lead time em seu processo logístico para ter sua forma de entrega (aos PDVs e consumidores diretos) como diferencial. Podemos dizer que a Amazon já começou essa corrida com prazos de entrega de até 2 dias”, considera.

Na atual situação, o cineasta gaúcho Giordano Gio dá destaque à internet e às plataformas online como força de continuidade e transformação:
Acredito que, talvez, por ser algo sem precedentes, tanto uma pandemia com esse nível de globalização, quanto o fato de isso acontecer num momento em que nós temos uma ferramenta como a internet, poderá haver sim um reaprendizado do valor da internet enquanto uma plataforma de circulação de informação e de conteúdo. As próprias empresas, artistas e produtores culturais devem entender a potência da circulação de informações e isso possa vir a ressignificar o mercado cultural de alguma maneira, o que não significa necessariamente asfixiar as mídias tradicionais. Deve-se encontrar um meio de coexistência, mas, sem dúvida, nós vemos vários artistas fazendo lives, apresentações de musicais, oficinas e workshops, muitos cineastas liberando filmes em plataformas de streaming e também e-books, acredito que tudo isso estimula um repensar da circulação da arte na contemporaneidade. Mas ainda é muito cedo para afirmar que mudança é essa e o que vai vir depois da pandemia, depois dessa tempestade. Está tudo muito estranho”, Giordano Gio, cineasta e historiador.

Por fim, o co-fundador do Feededigno, Guto Souza, relembra a clássica máxima: “Ano após ano o avanço tecnológico e o meio digital avançam a passos largos — podemos dizer que avanços de 10 anos, atualmente, seriam realizados em dois. Então com esse pensamento, acredito que cada vez mais estamos caminhando para algum episódio de Black Mirror, o OASIS de Jogador Nº1, ou uma Matrix, na pior das hipóteses. Antes de duvidar, lembre-se dos filmes de sci-fi de 20, 15 ou 10 anos atrás. ‘A arte imita a vida ou a vida imita arte?’”, brinca. A pesquisadora com interesse no universo geek, Adriana Amaral, também complementa com outra referência à cultura pop: “Uma coisa é certa: as pessoas não vão deixar de gostar da cultura pop, não vão deixar de apreciar e consumir seus produtos, elas vão achar um outro jeito de fazer isso. Citando ‘Jurassic Park’: a vida dá um jeito de circular, de voltar à tona”, conclui.

Por Dyessica Abadi

Não se abale, pois até os super-heróis tiveram que entrar na quarentena. A pandemia do Coronavírus mudou o calendário de produção e lançamento de diversos filmes em 2020 — entre eles grandes estreias como Viúva Negra, Mulher Maravilha — 1984, Os Novos Mutantes, além de outros títulos como 007 – Sem Tempo Para Morrer, Mulan, Velozes e Furiosos 9, por exemplo. Nos últimos anos, a indústria do cinema já passava por transformações no que tange à adaptação de novas tecnologias. Hoje, a epidemia de nível mundial renova e dá força ao debate sobre as transformações de produção e consumo de produtos da cultura pop.

Shoppings fechados. Salas de cinema vazias. Indústria parada. Ainda não se sabe quando a vida voltará à rotina “normal”. Em diversos lugares do mundo, a população encontra-se em isolamento domiciliar e a Organização Mundial da Saúde recomenda evitar aglomerações. Nesse cenário, torna-se inviável para Hollywood lançar filmes de orçamento milionário. A Marvel Studios, por exemplo, terá todo o seu calendário de lançamentos afetado, caso essa situação não se reverta até o final deste ano. O UCM (Universo Cinematográfico Marvel) instaurou um novo cenário para o cinema dos super-heróis, fomentando a produção de grandes blockbusters e utilizando estratégias de marketing, storytelling e referências à cultura pop. 

Agora, o UCM encontra-se desestabilizado. Em agosto de 2009, a Disney comprou a Marvel Studios por US$ 4 bilhões de dólares. O co-fundador do site de conteúdo nerd/geek Feededigno, Guto Souza, acredita ser viável a possibilidade do uso da plataforma streaming da Disney+ (Disney Plus) em relação aos produtos cinematográficos do UCM. “Tendo em vista que a Disney com a Marvel Studios é atualmente o maior fornecedor de filmes de super-heróis e, há algum tempo, de grandes blockbusters, vejo 2020 como um ano de ‘hiato’ do Universo Cinematográfico Marvel — já que tínhamos poucos lançamentos para esse ano. Acredito que as forças da Disney/Marvel estão direcionadas para estabelecer de forma consolidada seu ‘universo expandido’ do UCM no Disney+. Com os impactos da pandemia de Covid-19 e as paralisações das produções, os calendários serão reajustados para seguir a timeline de eventos do UCM e das séries que terão impactos diretos nos filmes”, analisa.

Produções que tiveram seus calendários afetados pela pandemia do Covid-19

O tradicional calendário anual de lançamentos do cinema foi completamente alterado — atualmente, na melhor das hipóteses, alguns filmes foram adiados até julho e novembro deste ano. O co-fundador do Feededigno e fã de filmes de super-heróis e quadrinhos, Guto Souza, acredita que esse remanejamento de datas não afetará a relação do público com as grande produções: “esperamos 30 anos por uma sequência de Mad Max e em 2015, Mad Max: Estrada da Fúria, do diretor George Miller, nos trouxe uma Furiosa (Charlize Theron) avassaladora e o longa ganhou 6 Oscars e 4 BAFTAs. Então, alguns meses ou uns poucos anos não abalará os fãs de cultura pop e cinéfilos.”

Já o cineasta e historiador, Giodarno Gio, avalia os efeitos do Covid-19 em escala mundial sobre o atraso da realização e lançamento dos produtos cinematográficos:

O calendário já está sendo afetado, tanto de produção, quanto de distribuição. No caso de distribuição, nós tivemos o primeiro caso do filme do 007, que foi jogado para o final do ano, mas daí seguiu com o adiamento de Um Lugar Silencioso – Parte 2, Mulan, Viúva Negra (que ainda está sem data), Minions 2, o coitado do filme dos Novos Mutantes (que está sendo adiado há um tempão, parece ser uma bomba, devem estar dando Graças a Deus para não precisar estar fazendo publicidade para esse filme neste momento), e tem o caso do Velozes e Furiosos 9, que eu acho que foi o mais radical até agora: para não abrir mão da ideia de lançar nos primeiros meses do ano, ao invés de lançar em outro mês, eles jogaram para 2021 a estreia, ainda na janela março-abril. Isso acontece porque são os meses em que essa franquia consegue seu público melhor, até pelo público chinês de Velozes e Furiosos, que é muito, muito grande. Então, nessa pandemia, com foco específico na China, esse seria um filme que seria muito prejudicado. Sobre o calendário de produção, aí é mais preocupante: as séries da Disney Plus foram todas canceladas, Jurassic World 3 adiado, a série do Senhor dos Anéis da Amazon também era uma grande aposta e também teve a produção parada, Animais Fantásticos e Onde Habitam 3, Matrix 4, Avatar 2 também que está sendo feita há 10 anos para mais e a produção parou agora, a Disney também parou os remakes que iam fazer de A Pequena Sereia, Esqueceram de Mim, Peter Pan. Grandes diretores também, não apenas dos Estados Unidos, estão parando as suas produções: teve o Guillermo Del Toro, que tinha uma produção grande que estava acontecendo agora e parou, cineastas orientais como Wong Kar-Wai e Jia Zhangke, os dois chineses, um de Taiwan e outro da China central, também pararam a produção dos seus filmes. Então, afeta tudo que é tipo de cinema, desde o maior até produções menores. Eu mesmo tinha um curta-metragem que iria estar filmando no final de Abril, mas já cancelamos essa filmagem. Então afeta todos os calendários de produção cultural do mundo inteiro”, Giodarno Gio, cineasta gaúcho. 

Plataformas streaming ganhando força em época de quarentena

Recentemente, a Universal Studios disponibilizou no streaming seus filmes que tiveram estreia em março — além disso, os suspenses The Hunt e O Homem Invisível serão lançados diretamente nas plataformas online. Nesse contexto, a Sony também disponibilizou a recente estreia de Bloodshot para aluguel on demand e a Paramount irá lançar a comédia romântica The Lovebirds diretamente na Netflix. Essas ações anteciparam em grande escala as janelas de exibição (período entre o filme estar em cartaz e ficar disponível na internet) que, normalmente, dura três meses.

Logo, a forma como o público consome determinados produtos culturais vem passando por diversas transformações e, agora, ganhou uma nova força. O cineasta e historiador gaúcho, Giodarno Gio, destaca a necessidade de compreender o mercado do cinema em relação às bilheterias oscilantes e retorno econômico das produções  para o streaming. “Já tem um processo acontecendo há alguns anos de legitimação do VoD (Video on Demand) como força econômica na indústria, ainda que os investimentos em produções dessas plataformas não sejam tão grandes quanto os investimentos para produções lançadas no cinema, e isso tem motivo: as bilheterias têm sido bastante oscilantes. O ano de 2019 foi muito icônico nesse sentido, pois tínhamos filmes enormes para sair, como Os Vingadores e Star Wars, os ‘carro-chefe’ da Disney, chegando ao fim de um ciclo. Então não está tudo bem certo quanto a essas bilheterias e como vão se manter, independente do Coronavírus. Agora, com a epidemia, eu acho que urge que os grandes estúdios entendam que o VoD é uma plataforma que é necessária avaliar economicamente como viabilizar, porque o retorno dela é diferente”, ressalta.

Sem previsão de retorno à normalidade, este pode ser o pior ano de bilheterias para o cinema mundial. “Nós estamos no ano em que a Apple lançou o streaming deles, que o Disney Plus está começando as grandes produções, a HBO está reformando a plataforma deles para lançar comercialmente de uma maneira mais consistente do que o HBO Go, a Amazon está se popularizando em outros lugares que não são nos Estados Unidos, e há uma série de outras plataformas em voga. Então, tem que ver como que os estúdios de cinema em si (e isso não só a Disney, mas aos que não tem plataformas de streaming, como a Warner e a Universal) vão se portar nessa mudança de paradigma, porque, nesse ano, vai ser sem dúvida a pior bilheteria em, sei lá, cento e poucos anos. Em muito e muito tempo, acho que desde os anos 20 pelo menos, não deve ter tido um ano com tão pouca bilheteria quanto vai ser em 2020”, destaca o cineasta, Giordano Gio.

Seria este o “fim do cinema” e o “fim dos quadrinhos”?

Na última terça-feira, 31 de março, uma notícia abalou a indústria de quadrinhos impressos: a Diamond Comics anunciou que não iria pagar seus clientes na América do Norte e Reino Unido (entre eles as grandes Marvel e DC Comics) e, anteriormente, a distribuidora anunciou o cancelamento da distribuição de quadrinhos em função do Coronavírus. No primeiro dia do mês de abril, nenhuma editora teve lançamentos nas lojas de quadrinhos — situação que não acontecia há décadas.

Neste cenário, dúvidas quanto à vitalidade de certos modos de exibição e consumo de produtos da cultura pop começam a surgir. “Acredito que vai afetar os nossos modos de assistir, os nossos modos de consumir cultura, mas eu acho que é muito cedo para ser muito catastrófico no sentido de dizer ‘o fim do cinema’, ‘o fim dos quadrinhos impressos’. Eu acho que não é o caso”, salienta Giordano Gio. O co-fundador do Feededigno, Guto Souza, avalia que os quadrinhos ainda tem diversas formas de vida e este não será o seu fim: “vide que desde o século XIX, tínhamos os penny dreadfuls (curtas de histórias de horror que custavam 1 centavo) como forma acessível de entretenimento para os que não tinham acesso aos romances da época. Então, sim, a boa e velha HQ fininha, irá sobreviver”. Além disso, ele relembra que o cinema tradicional é uma experiência sensorial que torna a contemplação do espectador única e, logo, não irá acabar.

Indo ao encontro dessas ideias, a mestre em Comunicação da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos, RS) com formação enfatizada em Cultura Digital, Adriana Amaral, avalia que o atual momento não selará o fim de determinados meios midiáticos, mas que de fato ocorrerá uma transformação nos modos de consumo. “Eu não acredito no fim. Já fizeram vários fins: do rádio, do cinema, da imprensa… Eu acho que as coisas se transmutam e acredito que a gente vai passar por um período de transição. O cinema já era uma coisa bastante elitizada no Brasil, tava muito caro, então acho que já tinha alguns problemas. No entanto, ele tava meio que sobrevivendo em torno desses blockbusters. Eu acho que talvez agora as coisas se reequilibrem, a gente tenha mais espaço para outros tipos de filmes, enfim. Acho que vai ter uma transformação e precisamos pensar de que forma essa produção, esse consumo, vai circular”, salienta.

Apesar de se falar em uma crise das salas de cinema, também se debate sobre o efeito contrário da quarentena — a possibilidade das pessoas reavaliarem e valorizarem o contato humano em certos níveis. Apesar disso, o gaúcho Giordano Gio relembra que o mercado exibidor já passava por um momento de transição de formas de consumo da cultura, especialmente porque as salas exibição de shoppings, como as Multiplex, tinham preços absurdos e as poucas salas de rua e exibição pública pouco público. “E tinha mais uma série de fatores para contribuir com essa crise do mercado exibidor. Acredito que isso saiu do controle realmente, acho uma situação triste, mas eu não acredito que os cinemas vão acabar, até porque é uma experiência completamente diferente do que tu assistir um filme no streaming em casa. Acho que oferece um fenômeno diferente e que sim, vai se repensar um pouco como distribuir, de que maneira tornar acessível o conteúdo ao público, mas não acho que vai matar a maneira de consumir”, completa. 

De qualquer forma, é alta a probabilidade da forma como consumimos cultura pop sofrer uma drástica transformação. A realidade vivida anteriormente à pandemia do Coronavírus, não será mais a mesma após esse período — e isso para todas as situações da vida. Atualmente, não há como prever certas situações, pois o momento todo é muito incerto — mas, definitivamente, as questões voltadas ao digital vêm ganhando forte relevância. Neste quesito, o cineasta Giordano Gio avalia:

Sobre o streaming não ser uma opção para os grandes lançamentos eu acho que é algo que pode mudar. Acho que é algo que pode ter posições revistas em relação a isso. Não sei se conta Mulan e Viúva Negra, mas deve ser algo que a Disney vem estudando loucamente. Acho bem improvável que Viúva Negra seja lançado em VoD, mas não seria tão afirmativo quanto à Mulan. Então, é de se repensar, assim, porque eu acho que existe uma valorização de assistir grandes filmes, considerados espetáculos visuais, no cinema. Mas quando isso se torna inviável por uma força externa, como se resolve né? É algo que está todo mundo discutindo, tanto a nível fenomenológico, quanto a nível econômico. Acredito que é necessário um forte apoio estatal em todos setores, em todos lugares do mundo — mas já que estamos falando de cinema, é preciso de apoio para que o setor de exibição não entre em colapso nesse tempo que vai ficar sem retorno, e também para os setores de distribuição conseguirem se manter com apoio para desenvolvimento e para pós-produção, que são coisas que é possível fazer remotamente em homme office. Então, tem uma série de medidas que precisam acontecer do poder público no mercado que é tradicionalmente privado nos Estados Unidos. É necessária uma reforma, uma restauração do pensar de como fazer essa arte e como manter essa arte viva”. Giordano Gio, cineasta e historiador.

Em 2019, por exemplo, o Netflix lançou em seu catálogo o filme O Irlandês, de Martin Scorcese. O lançamento e produção de filmes alternativos já tem sido uma realidade para as plataformas de streaming. Contudo, ainda há a questão da necessidade de outras formas de fruição dos conteúdos que vão além dos dispositivos disponíveis em casa. “Seguimos para o digital. Contudo, o cinema tradicional ainda é uma experiência e, antes de sua extinção, vejo que cinema e o streaming seguirão lado a lado, mas em velocidades e direções diferentes, obviamente”, conclui o co-fundador do Feededigno, Guto Souza.

Outros produtos midiáticos que poderão ser repensados

Não se trata apenas do cinema: diversos shows, eventos e festivais estão sendo reagendados e os efeitos poderão ser sentidos pelos próximos dois anos. A mudança das estratégias de marketing e divulgação consomem uma grande fatia do orçamento — com menos dinheiro em caixa após a crise, é possível que muito se modifique também com relação a outros produtos culturais. “Esse é um problema é que vai afetar o consumo de todos os produtos midiáticos e dos produtos em geral, como a questão de shows e entretenimento como um todo, porque provavelmente vai demorar bastante tempo para tudo estabilizar e as pessoas poderem sair outra vez”, avalia a pesquisadora com interesse no universo geek, Adriana Amaral

A mestre em Comunicação com enfatize em Cultura Digital ainda destaca as transformações que o segmento musical havia tendo já há algumas décadas. “Os artistas estavam tendo os shows como principal fonte de renda, já que a venda de CDs havia caído. Talvez agora as pessoas entendam a importância do streaming e me preocupa muito a questão dos artistas mais alternativos, que estão fora desse circuito mainstream, maior, então vamos ver como é que isso vai se reconfigurar, como é que o mercado, as pessoas e os artistas vão achar a solução”, conclui Adriana Amaral

Já no que tange ao setor do consumo de produtos físicos de cultura pop, o fã de filmes de super-heróis e quadrinhos, Guto Souza, avalia que este é o momento das grandes empresas investirem na qualidade logística das entregas das mercadorias. “Acredito que em um futuro próximo (pós-isolamento domiciliar) teremos uma grande escassez de produtos físicos para atender toda a demanda do mercado nerd/geek, visto que as grandes empresas da indústria já estão se movendo para atender essa demanda de forma digital (e-book, digital comics, filmes por streaming, games em mídias digitais). Por outro lado, no que tange aos produtos obrigatoriamente físicos (como roupas, acessórios e colecionáveis, por exemplo), as empresas terão que inovar para reduzirem seu lead time em seu processo logístico para ter sua forma de entrega (aos PDVs e consumidores diretos) como diferencial. Podemos dizer que a Amazon já começou essa corrida com prazos de entrega de até 2 dias”, considera.

Na atual situação, o cineasta gaúcho Giordano Gio dá destaque à internet e às plataformas online como força de continuidade e transformação:

Acredito que, talvez, por ser algo sem precedentes, tanto uma pandemia com esse nível de globalização, quanto o fato de isso acontecer num momento em que nós temos uma ferramenta como a internet, poderá haver sim um reaprendizado do valor da internet enquanto uma plataforma de circulação de informação e de conteúdo. As próprias empresas, artistas e produtores culturais devem entender a potência da circulação de informações e isso possa vir a ressignificar o mercado cultural de alguma maneira, o que não significa necessariamente asfixiar as mídias tradicionais. Deve-se encontrar um meio de coexistência, mas, sem dúvida, nós vemos vários artistas fazendo lives, apresentações de musicais, oficinas e workshops, muitos cineastas liberando filmes em plataformas de streaming e também e-books, acredito que tudo isso estimula um repensar da circulação da arte na contemporaneidade. Mas ainda é muito cedo para afirmar que mudança é essa e o que vai vir depois da pandemia, depois dessa tempestade. Está tudo muito estranho”, Giordano Gio, cineasta e historiador.

Por fim, o co-fundador do Feededigno, Guto Souza, relembra a clássica máxima: “Ano após ano o avanço tecnológico e o meio digital avançam a passos largos — podemos dizer que avanços de 10 anos, atualmente, seriam realizados em dois. Então com esse pensamento, acredito que cada vez mais estamos caminhando para algum episódio de Black Mirror, o OASIS de Jogador Nº1, ou uma Matrix, na pior das hipóteses. Antes de duvidar, lembre-se dos filmes de sci-fi de 20, 15 ou 10 anos atrás. ‘A arte imita a vida ou a vida imita arte?’”, brinca. A pesquisadora com interesse no universo geek, Adriana Amaral, também complementa com outra referência à cultura pop: “Uma coisa é certa: as pessoas não vão deixar de gostar da cultura pop, não vão deixar de apreciar e consumir seus produtos, elas vão achar um outro jeito de fazer isso. Citando ‘Jurassic Park’: a vida dá um jeito de circular, de voltar à tona”, conclui.

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